PEDRO BANDEIRA

A marca de uma lgrima
Com o amor no corao... e com a morte na alma.
        Isabel se acha feia. Ser mesmo? Feia ou no, ela  uma garota genial e acaba escrevendo lindos versos para ajudar o namoro de Rosana, sua melhor amiga,
com Cristiano, seu grande amor.
        A morte da diretora da escola - ter sido mesmo suicdio? - vem alterar sua vida e precipitar os acontecimentos. Isabel foi testemunha de uma cena muito
suspeita e se sente ameaada. A idia da morte comea a tomar conta de seu crebro, enquanto seu corao se despedaa pelo amor de Cristiano...

Coleo Veredas

EDITORA MODERNA

Coordenao editorial: Maristela Petrili de Almeida Leite
Preparao de texto: Angela Cristina da Silva Dias
Capa: foto de Eduardo Santaliestra
Composio: Linoart

Dados de Catalogao na Publicao (CIP) Internacional (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Bandeira, Pedro, 1942-
B167m A marca de uma lgrima / Pedro Bandeira. - So Paulo : Moderna, 1986.
(Coleo veredas)
1. Literatura infanto-juvenil I. Titulo. II. Serie
86-0970                                CDD-028.5



ndices para catlogo sistemtico:
1. Literatura infanto-juvenil 028.5
2. Literatura juvenil 028.5



ISBN 85-16-00261-6

I - Paixo que nasce


     1 - Uma gota de sangue

   Aquele era o seu pior inimigo. O mais cruel, o mais cnico, o mais sem piedade. Um inimigo que falava a verdade. Sempre. Sempre a verdade. Toda aquela verdade
que Isabel conhecia muito bem e que nunca a abandonava.
   Ainda com a escova de cabelo na mo, ela no podia deixar de encar-lo. L estava ele, encarando Isabel de volta, com os prprios olhos da menina. De um lado,
eles estavam molhados. Do outro, refletiam-se gelados, vtreos, impiedosos.
   - Feia...
   Isabel sufocou um soluo.
   - Gorducha...
   Uma lgrima formou-se na pontinha da plpebra.
   - Que culos horrorosos...
   Como um bichinho que foge, a lgrima saiu da toca e foi esconder-se no aro dos culos.
   - Voc plantou uma rosa no nariz, ?
   - Cale a boca... por favor...
   J mais grossa, a lgrima livrou-se dos culos e escorreu pelo rosto de Isabel.
   - Sabe que essa rosa vai ficar amarela? Amarela e grande... A lgrima penetrou-lhe pelos lbios e Isabel reconheceu aquele gosto salgado, to comum e to amargo
em momentos como aquele.
   - Por favor... me deixe em paz...
   - Voc vai espremer a rosa amarela. O seu nariz vai inchar... Os lbios de Isabel apertaram-se, molhados, sem palavras. Aquela garota que sempre tinha resposta
para tudo, sempre uma gozao na hora certa, uma tirada de gnio que deixava qualquer provocador sem graa, no sabia o que dizer quando seu grande inimigo apontava
sadicamente cada ponto fraco que havia para apontar.
   -... e voc vai ter vergonha de voltar s aulas na semana que vem...
   - Cale a boca!
   A raiva foi tanta que a escova de cabelo voou com fora, acertando o inimigo em cheio, bem na cara.
   - Isabel! Venha c. Morreu a no banheiro, ?
   A voz penetrou-lhe os ouvidos como uma campainha de despertador. A voz irritante da me. Estridente como uma campainha. Devia estar com enxaqueca,  claro. Na
certa ia reclamar de alguma coisa, exigir que a filha respeitasse pelo menos sua dor de cabea, queixar-se de...
   O combate com o inimigo estava suspenso, por hora. Isabel sacudiu a cabea, como se despertasse, e esfregou o rosto, apagando as marcas da luta.
   Uma ltima olhada para o inimigo. Ele a olhou de volta, agora com uma rachadura de alto a baixo.
   "Sete anos de azar!", pensou Isabel. "Ah, o que so sete, para quem j viveu quatorze dos anos mais azarados do mundo?''
   - Isabel! - ainda mais irritada, a voz da me invadiu o banheiro. - No me ouviu chamar?
   "Quatorze anos de azar!" ainda pensava a menina ao abrir a porta. "Ser que a minha me quebrou dois espelhos quando eu nasci?"

   ***
   Com as mos, a me apertava as tmporas, como se a cabea fosse cair, se ela a largasse.
   - Voc sabe que eu no posso gritar, Isabel. Voc devia...
   - Est bem, me. O que voc quer?
   - Ai, ai. Tia Adelaide acabou de telefonar.  o aniversrio do Cristiano e ela faz questo que voc v.
   - Cristiano? Que Cristiano?
   - O seu primo, ora. No se lembra do Cristiano? Vocs brincavam tanto...
   - Ah, me! Isso j faz um sculo...
   - , faz tempo mesmo. Tambm, Adelaide foi casar-se com um homem que no pra em nenhum lugar! No sei o que tanto tem aquele sujeito de mudar-se de cidade. Mas
parece que desta vez vai sossegar. Ele est bem de vida, agora. Montou uma casa que  uma beleza. Adelaide vai fazer uma festa para o Cristiano que...
   - Que droga! Aniversrio de criana!
   - Cristiano faz dezesseis anos, Isabel.
   - Eu no quero ir.
   - No discuta, Isabel. Minha cabea est me matando...

   ***
   -  claro que eu vou! - concordou Rosana, do outro lado da linha. - As frias esto no fim mesmo, e os programas andam raros. Acho at gozado: sempre sou eu quem
tem de arrastar voc para alguma festa. Voc sempre arranja uma desculpa, tem sempre que estudar...
   - Acontece que eu no quero ir sozinha, Rosana - desculpou-se Isabel, como se estivesse convidando a amiga para uma sesso de tortura. - Minha me exige que eu
v.  o aniversrio do Cristiano, um primo que eu no vejo h anos. Dizem que sempre foi o melhor aluno da classe. Um chato! E o pior  que ele foi transferido para
o nosso colgio. A partir de segunda-feira vou ter de conviver com o chatinho a vida inteira. Faltam s dois dias... A festa deve ser to chata quanto ele. A gente
fica s um pouquinho e...
   - J disse que vou, Isabel. Uma festa  uma festa. E esta no deve ser mais chata do que as outras...

   ***
   L estava ele de novo. O inimigo, agora rachado de cima a baixo, dizendo para Isabel que ela ficava medonha com aquela blusa, que seu cabelo estava um lixo, que
todo mundo ia rir dela na festa...
   - Todos riem, no ? S que eu nunca dou tempo para que riam de mim. Eles tm de rir do que eu digo. Tm de rir comigo, na hora que eu quero que eles riam. Todo
mundo ri do que eu digo, no ? Isabel, a grande gozadora! Isabel, a contadora de casos. Vamos, riam todos com Isabel!
   Levemente, seus dedos tocaram a face fria do inimigo, bem na rachadura. Lentamente, seus dedos percorreram a rachadura, tateando como um cego que procura reconhecer
algum.
   - Todos riem... Mas eu no queria tantos risos. Eu queria um sorriso apenas. Um s. Queria estar quieta e ver algum aproximar-se, olhando nos meus olhos... sorrindo...
Eu sorriria de volta, e nada mais precisaria ser dito...
   Isabel deixou as lgrimas correrem fartas pelo rosto. Foi a que o inimigo resolveu feri-la mais fundo e cortou-lhe o dedo com a borda da rachadura. Num gesto
maquinai, a menina levou o dedo  boca, chupando o ferimento. Na rachadura, no peito do inimigo, ficou uma gota de sangue.
   O dedo no doa quase nada.
   Era ali que doa.


     2 - Lindo como um deus

   Que cheiro bom, Rosana! Que perfume voc est usando? - Deixe de besteira, Isabel.  o mesmo que o seu. Rosana estava linda, como sempre. Linda como de propsito
para humilhar Isabel.
   Era mesmo uma beleza a casa da tia Adelaide. O que no parecia uma beleza era a prpria tia Adelaide. Recebia os convidados como se ela prpria estivesse fazendo
dezesseis anos. E o pior  que estava' vestida como se fizesse dezesseis anos.
   - Isabel! H quanto tempo! Como voc est crescida... Est uma mocinha perfeita!
   "E a senhora no est uma mocinha perfeita!'', pensou Isabel, enquanto aceitava os beijinhos da tia.
   - E essa lindeza, quem ?
   -  Rosana, minha amiga. Pensei que a senhora no se importaria se...
   - Oh, mas  claro que eu no me importo! Voc fez muito bem em traz-la. Cristiano vai adorar mais uma menina bonita na festa. Mas entrem, entrem!
   De fora, Isabel j podia ouvir o som ligado naquele volume chega-de-papo. Monotonamente, o surdo da bateria reboava como se dissesse:
   - No entre... no entre...
   Isabel apertou a mo de Rosana e arrastou a amiga atrs da dona da casa.
   As dimenses do salo perdiam-se nos cantos escurecidos pela iluminao precria, cheia de clares piscantes, destinados a excitar os espritos.
   No meio do salo, corpos sacudiam-se ao ritmo de um som frentico, meio misturados numa massa multicor que formava um bloco nico, annimo, como a representao
de um inferno alegre, alucinante...
   Tia Adelaide falava sem parar, apontava para todos os lados e ria muito, mas nenhum som humano poderia sobrepor-se quela loucura.
   - A senhora  mais ridcula do que eu esperava! - disse Isabel, rindo tambm pela oportunidade de acobertar a franqueza debaixo daquele som infernal.
   - Hein?
   - Eu disse que a senhora  ridcula!
   - Desculpe, querida, mas eu no ouo nada com essa msica... Da massa confusa de danarinos, uma figura destacou-se.
   Foi como se os mais ousados sonhos de Isabel tivessem tomado corpo e forma.
   Corpo e forma de sonho.
   O sonho dos sonhos de Isabel.
   Ele se aproximou, com aquela luz maluca fazendo brilhar seus dentes e o branco de seus olhos.
   E que dentes!
   E que olhos!
   Tia Adelaide ria mais ainda e apontava o rapaz, papagueando sempre. Pouco ou nada dava para entender, por mais que a tia berrasse. Mas Isabel praticamente adivinhou,
praticamente leu nos lbios a palavra chave daquele discurso:
   -... Cristiano... Cristiano! Aquele era Cristiano!
   Na memria de Isabel, s havia o registro distante de um primo entre outros, talvez um daqueles moleques briguentos, que s pensavam em futebol. Mas o moleque
tinha se transformado.
   - Como  mesmo o nome daquele deus grego? - raciocinou Isabel em voz alta, acobertada pelo som da festa. - Dionsio? Apoio? No importa. Vou cham-lo "sonho"!
   - Hein?
   Tia Adelaide berrava para o filho e apontava as duas amigas. Cristiano disse alguma coisa, bem-humorado, e abraou Rosana, apertadamente. Tia Adelaide sacudiu
a cabea vrias vezes e indicou Isabel. O rapaz falou novamente, rindo sempre, e voltou-se para a garota certa.
   Isabel sentiu-se enlaada por aqueles braos, e o rosto do rapaz colou-se ao dela.
   - Oi, prima. Como voc ficou linda... - bem prxima ao ouvido de Isabel, a voz quente de Cristiano envolveu-a, claramente, distintamente, fazendo-a surda a qualquer
outro som.
   - Linda?! - sussurrou a menina, surpresa e enlevada. - Eu? Sou linda? Voc disse que eu sou linda?
   Mesmo colado a ela, Cristiano no entendeu o sussurro. E, como se fosse um confeiteiro colocando uma cereja como um toque final de gnio sobre a torta mais apetitosa,
o rapaz beijou o rosto de Isabel com fora, fazendo estalar os lbios.
   As luzes, as cores e o sangue de Isabel misturaram-se numa vertigem gostosa, e o mpeto da menina foi fechar os olhos e colocar-se na pontinha dos ps, oferecendo
os lbios a Cristiano.
   Mas, em vez disso, o que fez foi rir alto, dizendo qualquer coisa, como se fosse a piada mais engraada do mundo.
   - Cristiano, era voc que eu estava esperando a vida toda...  Como se aquilo fosse um jogo, o rapaz falava tambm, rindo, sem entender nada do que ouvia.
   - Sonho. O meu sonho. Voc  o meu sonho feito homem... Ainda segurando os ombros de Isabel, Cristiano ria muito.
   - Eu nasci para amar voc, meu sonho...
   Naquele instante, a fita chegou ao fim, e a palavra "sonho" ressoou claramente pelo salo.
   - Hein? Sonho? O que voc disse?
   - Nada, primo...
   Os acordes de uma msica lenta, romntica, iniciaram uma nova seleo, preparada para secar o suor dos danarinos. Isabel esperou novamente o calor do abrao
de Cristiano, pronta a deslizar pelo salo ao seu comando, no importa aonde ele a guiasse. Ao infinito, talvez...
   - E esta beleza aqui, quem ?
   - H? Ah!  Rosana, minha amiga...
   - Ento vamos nos apresentar, Rosana.
   E foi Rosana que aqueles braos envolveram e carregaram para misturar-se  nova massa que se formava, agora numa forma lenta, arfante.
   Tia Adelaide j desaparecera. A msica desta vez no encobria a voz, e foi num murmrio que Isabel falou:
   - Rosana, devolva o meu sonho...

   ***
   Maquinalmente, tinha apanhado um copo de uma bandeja que algum lhe estendera. O lquido estava amargo demais para um refrigerante e aquele j devia ser o terceiro
copo que Isabel aceitava. Ou talvez fosse o quarto.
   Tinha escapado silenciosamente pela porta-janela que dava para o jardim e agora estava na penumbra, sozinha, com seu copo, vendo de fora o grupo de danarinos
consumir, uma aps outra, as msicas da seleo romntica. Com aquela iluminao, no era possvel distinguir ningum, mas Isabel via, em todos os casais, um s
par de namorados.
   A moldura da porta-janela era como uma tela de cinema. Sozinha, no escuro da platia, Isabel assistia quele filme, imaginando a histria, criando cada fala,
cada cena.
   Interrompendo o filme, na tela iluminada surgiu uma silhueta que no fazia parte do enredo. A silhueta caminhou at ela.
   - Oi.  uma festa particular? Por que no me convida?
   A luz do salo iluminou o rosto do rapaz  sua frente, que a olhava nos olhos, sorrindo.
   Isabel desviou o olhar e, por um momento, odiou aquele rapaz que vinha distra-la em sua sentinela.
   - Eu sou o Fernando. E voc?
   - Eu? Sou a iluso...
   -  um nome estranho para quem est sozinha. A iluso nunca est sozinha...
   - Pode me chamar de cretina, ento.  o meu apelido.
   - Cretino  aquele que cr em tudo o que ouve. Voc acredita em tudo?
   - Eu? No. S naquilo que me ilude.
   - Acreditaria se eu dissesse que  a garota mais linda da festa?
   - No. Eu diria que voc est me gozando. E o esbofetearia.
   - Seria uma nova experincia ser esbofeteado por uma iluso.
   - Ou por uma cretina...
   - Voc tem resposta pra tudo, no ?
   - No. S pra gente que tem pergunta pra tudo.
   Isabel entornou rapidamente o resto do copo e o lquido escorreu quente, queimando tudo por onde passava.
   - Quer outro refrigerante? Vou buscar.
   Fernando afastou-se e Isabel aproveitou para internar-se ainda mais no jardim, escondendo-se na sombra.
   Pela porta-janela saa o vulto de um casal abraado. Impossvel reconhec-los sob a pouca luz do jardim, mas Isabel adivinhou. Eram eles. Viu quando a moa ergueu
o rosto e viu o rapaz envolv-la num beijo longo, definitivo.
   Dentro da cabea de Isabel, os vapores da bebida explodiram, lanando fogo atravs de todas as veias e artrias. O mundo oscilou de repente, e a menina sentiu
a terra mida contra o rosto.
   No perdeu os sentidos, mas no conseguia mover-se. Tudo sentia, porm. Parece at que sentia mais do que nunca. Sentia a grama a picar-lhe o rosto e sentia os
braos fortes que comeavam a levant-la.
   - Cristiano... voc veio...
   Abraou-se fortemente contra o peito que a amparava. O calor daquele corpo forte deu-lhe febre e seus lbios espremeram-se loucamente contra aquela pele quente,
com cheiro de colnia. Uma correntinha roou-lhe o rosto e ela ergueu a cabea, oferecendo os lbios midos, vidos, desesperados.
   Uma boca maravilhosa colou-se  dela, enquanto a fora daqueles braos a apertava com loucura. Sentiu-se morrer de felicidade e o mundo apagou-se com o nome adorado
estourando em sua cabea como um coro de anjos.
   - Cristiano... meu amor...


     3 - Um domingo de espera

   Como eu fui idiota! Como eu sou idiota, fiquei escondida naquele jardim, como uma idiota, imaginando, como uma idiota, que Cristiano estava danando com a Rosana
a festa inteira. Pobrezinho, vai ver ficou o tempo todo me procurando... at me encontrar no jardim, bbada como uma idiota!
   - Idiota... - xingou o inimigo rachado. - E se ele ficou mesmo com Rosana a festa inteira?
   - Cale-se! E por que ele foi me procurar no jardim? Por que me beijou? Ah, eu posso morrer agora, mas aquele beijo ningum vai tirar de mim!
   Aquele beijo... Isabel ainda sentia os lbios queimando e as narinas embriagadas com aquele cheiro de sonho.
   Tia Adelaide tinha se incumbido de lev-la para casa e Isabel acordara, naquele domingo, com enjo de ressaca e gosto de Cristiano na boca.
   A manh comeou mal, naturalmente, com a me piorando da enxaqueca e lamentando-se pelo que diriam os vizinhos ao ver sua filha - uma fedelha! - chegar em casa
bbada como uma porca.
   - Ah, se seu pai fosse vivo, voc ia ver o que ia lhe acontecer!
   - Mas papai est vivo!
   - No. Para mim, ele est morto. Com aquela sujeitinha, para mim ele est morto!
   - Mortos no mandam cheques, mame...
   Tudo, afinal, tinha passado, menos a lembrana daquele beijo. Menos a lembrana de Cristiano. Pensou em telefonar para ele mas, se telefonasse, o que iria dizer?
Na certa acabaria nervosa, fazendo alguma de suas gozaes, e estragaria tudo. No, tudo no. No havia o que pudesse estragar o que tinha comeado com aquele beijo.
Aquele beijo fora um compromisso. No por ter sido um beijo. Mas por ter sido um beijo como aquele.
   Isabel tinha pressa.  claro que tinha pressa. Era preciso reencontrar Cristiano para no o largar nunca mais. Mas era domingo, dia-de-sair-com-papai. Esta era
outra razo para esperar mais um dia, o dia que separava a descoberta do seu sonho e o reinicio das aulas. O incio de uma nova vida. Uma vida com Cristiano.
   Pensou em escrever. Uma carta. Ou mais. Um texto onde ela poria de tudo, desde versos nascidos da paixo at pequenas confisses, como se ela quisesse pr-se
a limpo, exibir sua alma nua, preencher um passaporte para que Cristiano a tomasse, levasse embora e nunca mais a deixasse partir.
   Escrever, ela sabia. No colgio, ningum podia disputar com ela na hora de falar e de escrever. Ah, se pudesse, ela usaria aquele domingo apenas para pensar,
para repassar cada momento daquele encontro estonteante, daquela felicidade imensa.
   Os domingos, porm, no eram de Isabel, nem para escrever, nem para pensar. Os domingos eram de papai.
   Quando a buzina soou, Isabel deu uma ltima olhada para o inimigo, mostrou-lhe a lngua e foi ao encontro do pai de todos os domingos.

   ***
   - Papai, voc me acha linda?
   O restaurante estava lotado, como acontece com os restaurantes aos domingos. H quantos domingos, em quantos restaurantes Isabel j almoara com o pai, desde
que a "sujeitinha" o havia arrancado de casa? Talvez esse nmero no tivesse tanta importncia, agora que a menina observava que, a cada domingo, caa a qualidade
do restaurante.
   Mas ainda era em dinheiro que o pai lhe falava todos os domingos, e era em dinheiro que ele estava falando quando foi surpreendido pela pergunta da filha.
   - Hein?  claro que eu acho. Voc  a princesa do papai. A garotinha mais linda do mundo!
   - Ah, no. Como garotinha no, papai. Quero saber se voc me acha uma mulher linda!
   Isabel estava feliz como nunca, naquele domingo. Queria fazer algo de bom, algo grande, para dividir sua felicidade com algum.
   - Papai, eu quero conhecer a Lcia.
   Lcia. A sujeitinha. Imagem de bruxa e megera inculcada em sua cabea pelos lamentos da me. A me abandonada  sua enxaqueca e  penso mensal que garantia 
menina as refeies de todos os dias, mas que j estava comprometendo a qualidade dos almoos de domingo.
   - A Lcia? Mas voc sempre se recusou a...
   - Isso foi antes, papai. O antes acaba passando. Hoje eu me sinto diferente. Acho que quero fazer todas as pazes que puder. Vamos comear pela Lcia?
   O pai passou o guardanapo pelos lbios e pareceu subitamente interessado no exame do paliteiro.
   - Sabe, Isabel... Eu estava esperando o momento certo para te contar...  que... eu no estou mais com a Lcia...
   "No est mais com a sujeitinha?", pensou Isabel. "Ento o servio de informaes da mame perdeu essa fofoca?"
   - Talvez sua me tivesse razo... A Lcia era... bem... Mas eu encontrei algum realmente fora de srie. O nome dela  Helena. Voc vai adorar! Hoje, no  possvel,
porque ela foi visitar os pais, j que eu ia sair com voc. Mas, no prximo domingo, eu vou...
   Isabel ps a mo sobre a mo do pai e sorriu:
   -  melhor no fazer planos, papai. No domingo que vem, talvez no seja mais Helena. Pode ser Mrcia, ou Cristina, ou...
   - Isabel! Voc no devia...

   * * *
   - Como ser que papai encontrou essa Helena? E a Lcia? E a mame? Ser que pegou alguma delas bbada, cada na grama de algum jardim? Ser que tudo comeou com
um beijo? Um beijo como o de Cristiano?
    noite, abraada ao travesseiro, um s nome ocupava todo o ser de Isabel.
   - Cristiano...
   No conseguia lembrar-se do primo em meio s plidas recordaes dos garotos de sua infncia. Teria sido aquele que se divertia batendo nos menores? Ou seria
aquele outro que teimava em tirar sua calcinha?
   - Quer tirar minha calcinha agora, Cristiano?


     4 - A primeira marca

   Oi, Isabel! Nem telefonei pra voc ontem porque... - Rosana chegou na classe atrasada, como sempre. O professor j estava entrando, e Isabel s teve tempo para
uma frase:
   - Eu tenho uma coisa maravilhosa pra te contar, Rosana,..
   - ? Eu tambm tenho uma novidade que vai fazer voc cair dura, Isabel!
   - Depois a gente fala.
   Fsica! Uma matria nova, como tudo deveria ser novo naquele incio de curso colegial. Tinha jeito de matemtica. Naquele momento, porm, o que Isabel precisava
era de uma boa aula de literatura, com poemas de Fernando Pessoa, ou Vincius, ou Eduardo Alves da Costa, ou Joo Cabral...
   Cristiano, naquele momento, tambm estaria assistindo a sua primeira aula no segundo ano, e Isabel pensou em fingir que no entendia a tal da fsica para, mais
tarde, tomar algumas aulas particulares com ele. Sempre o primeiro da classe, no foi isso que lhe disseram? Mas no era sobre fsica que a menina gostaria de conversar
com Cristiano. Ah, no era no!
   A professora procurava conquistar a classe, fazendo-se simptica e engraada. Simptica at que ela era, mas decididamente no era engraada.
   Distrada, Isabel deixava a caneta deslizar pelo caderno. Devia tomar notas, mas as palavras que lhe entravam pelos ouvidos chegavam totalmente transformadas
s pontas de seus dedos.
   -...a fsica estuda a relao que existe...

   Neste fsico de um deus grego,
   numa intensa relao,
   eu, plida e bbada, tremo
   e me afogo e me sufoco
   entre loucura e paixo...

   -... entre a matria e a energia...

   Quero fundir meu corpo
   no teu corpo junto ao meu.
   Nos teus braos serei cega
   pra que sejas o meu guia.
   Ns seremos a matria,
   nosso amor ser a energia...

   -... a energia afeta a matria...

   Se esse amor me modifica,
   me transforma, me edifica,
   se ele afeta tanto a mim,
    tambm te transformar.
   A energia desse amor
   afetou-nos para sempre,
   e a matria que hoje somos
   outra matria ser. ,.

   -... e a matria afeta a energia...

   Seremos dois novos amantes
   pelo amor energizados,
   transformados,
   mas em qu?
   Quem eras antes de mim?
   Quem sou depois de voc?

   -... esse processo de transformao  o objetivo.

   No meu seio sers meu
   para o uso que eu quiser.
   Nos teus braos me abandono,
   ao teu lado sou mulher...

   ***
   O sinal veio interromper a aula e o poema. A aula seguinte seria de ingls, e a classe se dividiria, misturando-se a grupos de outras sries, de acordo com o
nvel de conhecimento de cada aluno. Isabel estudava ingls h tempos e, por isso, fora selecionada para a turma mais adiantada.
   Pensou em entregar o poema a Cristiano. Destacou a folha do caderno e guardou-a cuidadosamente dentro do fichrio. Nem assinou. Assinar para qu? No havia duas
pessoas no mundo que pudessem dizer o que estava dito naquele papel.
   Acenou para Rosana, que no ingls ficara numa turma mais fraca, e correu para a sala, pretendendo conseguir um lugar bem no fundo, onde pudesse recolher-se 
sua idia fixa. A idia maravilhosa de Cristiano.
   Cristiano!
   Foi a primeira imagem, em carne e fascinao, que surgiu diante dos olhos de Isabel. Cristiano sorriu lindo, lindo sorriso, lindo Cristiano, e a menina vacilou
por um momento.
   Pronto. Estava sentada na primeira carteira, longe de Cristiano e ao alcance da respirao do professor de ingls.
   Tonta! Agora nem podia olhar para Cristiano sem chamar a ateno. Mas ele estaria olhando para ela. O tempo todo. At podia sentir o calor daquele olhar em sua
nuca. Cerrou os olhos e recebeu a ateno de Cristiano como se fosse um beijo. Um beijo suave, longo e quente. Um beijo de Cristiano.
   - I think we could begin by reviewing the defective verbs. Of course, during the holidays you forgot most of your English, didn't you?
    frente de Isabel, o professor iniciou a aula, falando com aquele mesmo tom amistoso de todo incio de ano letivo. Em poucos dias, ele, na certa, estaria aos
gritos, pedindo silncio em portugus.
   Por cima do ombro de Isabel, a mo de um colega passou-lhe furtivamente um papelzinho dobrado. Com todo o cuidado, para que o professor no notasse, a menina
desdobrou o papel no colo, por baixo da carteira. Foi como se um anjo tivesse surgido de camisola azul e trombeta de ouro para anunciar-lhe o paraso.

   Priminha querida, preciso muito falar com voc. Onde poderemos conversar sossegados? Te adoro! Cristiano.

   - It's easy, isn't it? But you mustn't forget that there's no rule to help you use those verbs...
   "Ele quer falar comigo... comigo!", pensou a menina, sentindo-se quase febril. Rabiscou rapidamente quatro palavras - me encontre no laboratrio - em uma folha
de caderno, dobrou-a e passou para o colega de trs.
   - You must practise, in order to know which tense has to be emploied without the need of...
   A torrente de palavras estrangeiras perdeu o sentido para Isabel, enquanto as palavras de Cristiano penetravam-lhe como se fossem vrus caindo em suas veias,
misturando-se ao seu sangue e indo infectar-lhe o corao.
   "Neste momento, ele deve estar igualzinho a mim, pensando em mim... Vamos pensar juntos, um no outro, Cristiano. Ser como se estivssemos de mos dadas.
   Num repente, Isabel baixou a cabea e beijou o bilhete. Ao olhar novamente para aquela letra apressada, notou que uma marca redondinha tinha acabado de borrar
a palavra adoro. Era a marca de uma lgrima. De felicidade.
   - Eu tambm te adoro, meu amor... - balbuciou ela, apertando o bilhete contra o peito.


     5 Na escurido do laboratrio

   Senhorita Iluso! Que timo reencontrar voc! O sinal para o recreio tinha acabado de soar, e Isabel correra em direo ao laboratrio. Mas, no meio do corredor,
a figura de um rapaz a deteve, sorrindo e olhando-a bem de frente, bem nos olhos.
   - Hein?
   - No se lembra de mim, senhorita Iluso? A testa de sbado, o aniversrio de Cristiano... Sou o Fernando, lembra?
   - Oi, Fernando. Desculpe, mas...
   - Quer dizer que voc estuda aqui? Que sorte! Acabo de me transferir para o terceiro ano e talvez...
   - Desculpe, Fernando. Estou com uma pressa danada. Depois a gente conversa, t?
   - ... dizem que a iluso  como uma ave que vem e vai. S que eu no gostaria de perder a iluso, entende?
   - Tchau, Fernando...

   ***
   Isabel certificou-se de que no havia ningum olhando e entrou silenciosamente no laboratrio. Fechou a porta sem um rudo e esperou que a viso se acostumasse
ao escuro. As janelas do laboratrio eram cobertas com cortinas pesadas para proteger da luz os produtos qumicos. Um lugar ideal para um encontro de namorados.
   Aos poucos, com a fraca luz que se filtrava atravs das cortinas, Isabel pde perceber as estantes envidraadas, cheia de frascos contendo formas assustadoras
conservadas em formol. Uma enorme cascavel, com seus guizos, flutuava num lquido avermelhado por seu prprio sangue. Ao lado, uma caranguejeira peluda movia-se
lentamente numa gaiola de vidro.
   A cobra, a aranha, o sangue... Um calafrio percorreu a espinha de Isabel e, por um momento, a menina duvidou que aquele fosse um lugar adequado para o incio
do seu namoro. Por um momento, teve medo do encontro com Cristiano. Mas o temor transformou-se em ansiedade quando percebeu o rudo suave da porta que se abria.
   - Priminha! Oi, priminha! Voc est a?
   Acobertada pela penumbra, Isabel sorriu e deixou passar um tempo de suspense, antes de responder com a voz mais suave que conseguiu fazer:
   - Estou aqui, meu querido...
   Cristiano guiou-se pela voz e veio abraar Isabel apertado, como da primeira vez. E, como da primeira vez, beijou-lhe o rosto com um estalo.
   - Priminha querida! Foram os anjos que me fizeram reencontrar voc!
   "Claro! Os anjos sempre ajudam os semelhantes, meu querido...", pensou Isabel, sem vergonha de sorrir embevecida, porque a penumbra era um disfarce perfeito.
Era mais. Era uma fantasia.
   - H quanto tempo no nos vemos, priminha... Desde crianas. Mudamos muito, no  verdade?
   "Voc foi a lagarta que virou borboleta, meu amor...", pensou Isabel.
   - Voc ficou uma lindeza...
   "Vem, borboleta, vem c depressa, asas douradas, me carregar. Vem, vamos juntos, num cu sem tneis, buscar caminhos s de ns dois...", num turbilho, os pensamentos
explodiam em versos dentro da cabea de Isabel.
   - Tanto tempo... mas eu nunca me esqueci de voc... "Catar o plen, fazer a cera, colher futuros, mexer o mel. Deixar passados, erguer castelos, juntar o antes
com o depois... Droga! Isso no  hora de fazer poesia.  hora de viver poesia!"
   - Me lembro muito bem... voc ficava uma gracinha de culos!
   "Tolinho! Eu no usava culos quando era criana...", riu-se Isabel por dentro.
   - Eu me lembro... suas trancinhas... "Ah, Cristiano... eu nunca tive trancas..."
   - Como foi bom reencontrar voc, priminha... Isso mudou a minha vida...
   "A minha tambm, meu amor..."
   - Era isso que eu queria falar com voc, Isabel... Nem sei como comear...
   "Me abrace, meu querido, me abrace que eu espero a vida inteira..."
   - Isabel, eu estou apaixonado... "Por mim, boneco, pela sua Isabel..."
   - Nem sei dizer... j houve outras garotas, mas, agora... "Agora sou eu, Cristiano. Meu Cristiano!"
   - Agora  diferente. Eu sei que  amor... "Por mim..."
   - Nunca me senti desse modo. Por isso eu sei que s pode ser amor...
   "Por mim..."
   - Estou apaixonado... "Por mim, Cristiano!"
   - Por Rosana, Isabel...
   A aranha encolheu-se na gaiola de vidro e a escurido do laboratrio pareceu crescer, como se tivesse anoitecido subitamente, apagando a imagem de Cristiano,
arrancando Cristiano do alcance de Isabel.
   "Rosana? Ele ama Rosana? E eu, meu amor, e eu?"
   - Ah, priminha, como foi maravilhoso voc ter levado Rosana  festa. Rosana  linda...  assim como... eu ca por ela na hora... ela ... nem sei como dizer...
Se voc soubesse quanto me fez feliz...
   "Ah, Cristiano, se voc soubesse quanto me destruiu..."
   - Quero que voc seja a madrinha do nosso namoro, Isabel. Quero dividir nossa felicidade com voc.
   "Cristiano, no faa isso comigo. Me acuda, me salve, Cristiano...", sem poder explodir em protestos, o pensamento de Isabel caa de joelhos.
   - Voc vai ajudar o nosso amor, priminha. Eu lhe peo que... eu lhe peo que fale com Rosana e combine um encontro para amanh  tarde. Voc me ajuda? Vamos,
priminha, prometa que vai nos ajudar!
   - Eu? sim...  claro, primo. Eu... eu prometo...
   - Isso, priminha! Diga a Rosana que eu vou esper-la s quatro, em frente do cinema, na esquina da...
   - Um cinema?  que a me da Rosana  to...
   - Diga que vocs vo juntas ao cinema, priminha. Por favor, eu estou voando de felicidade. Me ajude!
   "E eu estou afundando, Cristiano, estou me afogando... me acuda... me salve, meu amor...", pediu a menina em pensamento.
   - Voc prometeu, Isabel.
   -  claro, Cristiano, eu prometi...
   - Posso contar com voc?
   - Pode contar comigo...
   - Eu te adoro, priminha!
   Isabel abaixou a cabea na hora de ganhar o beijo estalado, prmio de consolao para a cretina que acreditava na iluso. Assim, o beijo marcou-lhe a testa e
Cristiano no sentiu o gosto salgado dos filetes de derrota que escorriam pelo rosto da menina.
   "Cristiano, no era essa adorao que eu queria... Eu queria o seu amor, eu queria voc, Cristiano... meu amor..."

   ***
   Isabel ficou s, com a escurido que tomava conta do seu ser.
   Tirou os culos molhados e encolheu-se, desejando que uma concha se fechasse em torno de si e a levasse para um mar distante, escondendo o desespero sob toneladas
de guas salgadas como lgrimas.
   "O que aconteceu? Como isso foi acontecer? Cristiano, voc no podia fazer isso comigo... No me mate, meu amor... no mate o meu amor... Com a Rosana? Logo com
a Rosana, minha melhor... No, com a Rosana, no, com outra garota, no, Cristiano... Me ame, por favor... Me ame como eu te amo, meu amor... Por que voc no pode
me amar? Se eu te amo tanto... Ningum poder te querer como eu, Cristiano, minha paixo, meu primo, minha vida... Por que voc me beijou daquele jeito? Por que
tanto, Cristiano? Por que eu estava ali,  mo? Nada disso, no pode ter sido s por isso. Aquele beijo era de verdade, Cristiano, eu senti que era de verdade...
eu ainda sinto, meu Cristiano..."
   O rudo suave da porta fez Isabel emergir do desespero. Seria ele? De volta? De volta para contar que tudo no passara de uma brincadeira? Que Rosana no importava
e que era ela, Isabel, que ele amava?
   Mas, mesmo na penumbra, mesmo sem culos, mesmo com os olhos afogados pela desiluso, dava para perceber que o vulto estava de branco. Talvez o guarda-p do encarregado
do laboratrio.
   Isabel encolheu-se mais ainda, fundindo-se s sombras. No! Ningum podia v-la naquele estado. No! A no ser o seu grande inimigo, ningum, jamais, a vira num
estado como aquele.
   O vulto aproximou-se de uma das estantes. Pegou um frasco, tirou algo de dentro, guardou-o e saiu rapidamente do laboratrio.

   ***
   Quando a campainha soou, anunciando o final do recreio, Isabel secou o rosto e ps-se de p, j de culos, aproximou-se e leu distraidamente o rtulo do frasco
que o vulto de branco pegara:
   Linamarina...
   "Isso tem nome de mulher. Lina e Marina. Duas mulheres... O que ser isso? Ser que  costume esfacelar os sonhos de garotas apaixonadas e guardar aqui o pozinho
que sobra? Daqui a pouco, acho que vai haver um novo frasco com o rtulo ISABEL".... Glicosdio cianonitrila.
   "Qumica! Uma cincia de palavres. Bem, vou aprender todos eles antes que o ano termine. Chega de palavras carinhosas."
   Enxugou-se melhor, arrumou a roupa, o cabelo e decidiu-se:
   "Vamos l, Isabel. Vamos rir e fazer os outros rirem. Como sempre. Ningum tem nada com a sua vida, Isabel. Nem com a sua morte. Eu prometi. Agora vou cumprir
minha promessa. Vamos, cretina! Vamos ajudar a liquidar a sua prpria iluso!"
   Isabel j estava calma quando saiu do laboratrio. Mas, dentro da gaiola de vidro, a aranha peluda sacudia-se loucamente.


     6 - Um poema para Cristiano

   Isabel! Onde voc andou? Procurei por voc o recreio inteiro! - Rosana parecia aflita e havia pouco tempo para conversar antes da aula de portugus. - Seu rosto
est vermelho... O que houve?
   - Nada... acho que estou resfriada, Rosana. Na sada, eu vou com voc at o ponto de nibus. Tenho uma coisa pra te contar que vai deixar voc muito feliz.
   - E eu tambm. J no te disse que...
   A fama do professor de portugus do colegial era de assustar. Diziam que ele era severssimo. Na certa aquela severidade no devia ser semelhante  do Brucutu,
o terrvel bedel-chefe. O professor seria daqueles exigentes, para quem um erro de concordncia era to grave quanto empurrar escada abaixo a cadeira de rodas de
uma velhinha paraltica.
   Rosana estava ao lado de Isabel e, afora a vermelhido, que j desaparecia, era impossvel notar qualquer indcio de tristeza na fisionomia da menina. Ningum
saberia do vulco que lhe queimava as entranhas, da vontade de gritar, de procurar algum com quem pudesse dividir desolao. Mas ela havia prometido. Era a segura-vela,
era o cupido do encontro entre o seu grande amor e sua melhor amiga. Mas ningum saberia de nada.
   "Ser que algum j passou por isso?", pensou a menina.
   Redao. O forte de Isabel. Se somasse todas as mdias de redao de seus oito anos de estudante, daria quase oitenta. O professo, falava srio, mas mansamente.
Props que todos fizessem um texto, tema livre, de aquecimento.
   Isabel olhou de lado para Rosana. E o que viu foi pavor. Ambas sabiam que a tal redao de aquecimento era o modo mais rpido de o professor conhecer as possibilidades
de cada aluno. Seria a primeira impresso, que definiria o aluno no conceito do professor. Como modificar depois uma primeira impresso desastrosa?
   A menina sabia que desastre era uma definio adequada para as redaes de Rosana. Sorriu para dar confiana  amiga e ps-se a escrever furiosamente. Em dez
minutos, passou a folha de papel discretamente para Rosana.
   - Pegue. Copie com sua letra.
   Bem, a redao de Rosana j estava pronta. A amiga estava salva de se ver queimada com o professor logo no primeiro dia de aula. Agora, era a sua vez.
   O tema era livre. Mas, que outro tema poderia passar pela cabea de Isabel, seno a figura idolatrada de Cristiano? E ela estaria disposta a confessar no papel
tudo o que sua expresso escondia?
   "Idiota que fui. Pensar que Cristiano pudesse se apaixonar por mim, por mim, a gorducha...
   Os pensamentos queimavam Isabel por dentro, e ela escreveu:
   Quando voc me beijou...
   "Pensar que Cristiano poderia ler nos meus olhos, atravs dos culos, e enxergar l dentro toda a paixo da gorducha iludida..."
   Maquinalmente, escrevia sempre a mesma frase:
   Quando voc me beijou...
   "Apaixonar-se pela desengonada, pela feiosa piadista... Ah, que piada! Com o rostinho de Rosana  frente... com o corpinho de Rosana nos braos... nem pensar!"
   Quando voc me beijou...
   "Burra! O que Cristiano poderia encontrar em mim? A espinha amarela no nariz, como um arete de pus abrindo caminho rumo  solido?""
   Quando voc me beijou...
   "O que ele veria? O que todos vem, alm da gorducha iludida, da feiosa cretina? Fernando tem razo. Eu acredito em tudo, como uma cretina. Acreditei at que
Cristiano poderia me amar. Cretina! Acreditei at naquele beijo..."
   Quando voc me beijou...
   "Cristiano... "
   Vinda do fundo de seu desespero, uma lgrima solitria pingou sobre o papel.
   - Isabel! Quem  Isabel? - o professor tinha dado por encerrada a redao.
   - Sou eu.
   O professor aproximou-se da menina com uma expresso que, com algum esforo, poderia ser chamada de sorriso.
   - Meu colega da oitava srie elogiou muito seus textos, Isabel.
   Quero comear por ele. Pode entreg-lo para mim?
   A folha de redao passou para as mos do professor e o arremedo de sorriso desapareceu na hora.
   - O que  isto? H apenas a mesma frase escrita vrias vezes!
   -  um poema concreto, professor. Assim como "Uma pedra  uma pedra", do Carlos Drummond de Andrade. O leitor deve completar o poema de acordo com suas prprias
experincias, de acordo com suas lembranas de um beijo de amor...
   Risadinhas discretas fizeram o professor erguer um olhar duro, controlador, para toda a classe.
   - Uma explicao hbil. Hbil e espirituosa, Isabel. Mas que no passa de uma sada para desculpar a preguia. A preguia e a falta de respeito... E isto? Que
marquinha redonda  esta?
   - Faz parte do poema, professor.  o cuspe do namorado... Desta vez a gargalhada no foi contida e o olhar do professor, surpreso, no conseguiu transmitir autoridade.
Tinha perdido o controle de uma classe pela primeira vez na vida.
   - Comeamos bem, no , dona Isabel? Mas temos um ano inteiro pela frente. Que tal abrir o boletim com um zero?
   Isabel sorriu.
   - Vamos ver se esta classe vai me dar trabalho. Voc, mocinha, como  o seu nome?
   - Eu? Rosana...
   - Posso ver a sua redao, Rosana? Hum... A estrutura no est m... a idia  forte... breve, mas forte... tem um ritmo que... Parece que me informaram errado.
Quem sabe escrever nesta classe chama-se Rosana...
   A redao de Rosana ganhou oito. Nove o professor s dava para ele mesmo, e dez, s para Deus.

   ***
   - Ah, menina, que judiao! Estou morrendo de remorso. Eu tirei oito com a redao que voc fez, e voc tirou zero!
   - No esquente a cabea, Rosana. Eu dou um jeito naquele professor, pode crer. Na prxima, ele vai ter de me chamar de Deus e me dar um dez.
   - Puxa, oito em redao! Nunca tirei isso. Uma nota oito vezes maior que a sua, para duas redaes feitas pela mesma pessoa...
   - Alm de redao, acho que voc vai ter de rever a sua matemtica, Rosana. Oito vezes zero d zero mesmo.
   As duas riram-se e Isabel passou o brao pelos ombros de Rosana. Quem visse as duas, assim abraadas, assim sorrindo, teria uma imagem falsa daquela felicidade.
Uma das duas mentia ao sorrir. Mas mentia como um mestre.
   - Acho que nunca vou poder pagar tudo o que devo a voc, Isabel. E no estou falando de redao. Estou falando de amor...
   - Para mim, escrever tambm  um ato de amor, Rosana. Quem escreve ama aquele que vai ler, quer conquistar o amor daquele que vai ler.
   "S que Cristiano nunca lera o que eu escrevi para ele. Nunca saber do meu amor. No h esperana", pensava ela atrs do sorriso.
   - Voc  muito adulta, Isabel. Adulta demais...
   -  que eu tenho sessenta anos, Rosana. Mas sou conservada. Agora deixe de bobagem e continue com o amor e suas dvidas... ou dvidas, sei l.
   - Nada de dvidas! Eu estou apaixonada mesmo. Gamada, cada! A melhor coisa que aconteceu na minha vida foi voc ter me convidado para aquela festa. Conhecer
Cristiano foi...
   Com a expresso mais interessada do mundo, Isabel ouviu o relato da amiga. l estavam no ponto do nibus, cheio de gente, e Rosana falava baixo, como segredo,
como culpa, como num confessionrio. Descrevia cada passo daquela noite inesquecvel, cada dana, a presso do rosto de Cristiano junto ao seu, as palavras sussurradas
ao ouvido.
   O nico segredo que faltava era Cristiano debruando-se sobre Isabel no jardim. O nico segredo que faltava era aquele beijo. Mas Rosana nunca deveria saber disso.
Por que estragar-lhe a felicidade? Bastava que uma das duas fosse infeliz.
   - Nos braos dele, eu...
   Dentro de Isabel, por trs do sorriso interessado, a descrio feita por Rosana ganhava mais detalhes, cheios de calor, de cheiros, de cobras, de contatos, de
aranhas peludas...
   - Meu nico medo, Isabel,  que, para ele, eu no tenha passado de um presente de aniversrio, de diverso para uma noite. Mas eu quero aquele garoto! Nem sei
o que ele pensa de mim, mas  ele que eu amo. Preciso me encontrar novamente com ele!
   - Que tal amanh, s quatro horas, em frente ao cinema, na esquina da...
   - O qu?! De que voc est falando?
   - Bobinha! Eu no disse que tinha uma novidade que ia fazer voc cair para trs? Pois esta  a novidade.
   - Voc... voc falou com Cristiano? Sobre mim?
   -  claro que falei. Ns somos primos, no somos? Somos confidentes...
   - O que foi que ele disse? O que foi que ele disse, Isabel?
   Isabel sorriu, gozando carinhosamente a ansiedade de Rosana.
   - Hum... mais ou menos o que diria Abelardo sobre Helosa...
   - Isso foi numa novela? No assisti...
   - Ah, Rosana, isso no  novela de televiso...
   - O que ele disse, Isabel?
   - Acho que voc vai preferir que ele repita tudo pessoalmente, no vai? O importante  que ele quer encontrar-se com voc. No cinema. Amanh s...
   - Ai, ai, ai! A minha me...
   - Diga que voc vai ao cinema comigo. Passo na sua casa l pelas trs e meia. Eu tenho mesmo de dar um pulo numa livraria. Na sada do cinema nos encontramos
e voltamos juntas.
   - Voc  um amor, Isabel. No sei o que eu faria sem voc. Amanh de manh, no colgio, diga ao Cristiano que...
   - Eu? No acha melhor voc mesma dizer?
   - No sei se poderia, Isabel. Quando eu o encontrar, vou ficar muda como uma porta!
   - Ento escreva um bilhete. Basta sorrir e colocar o bilhete na mo dele.
   - Eu bem que gostaria. Ah, se eu pudesse, eu colocaria nesse bilhete tanta coisa, como se... como se...
   - Como se o bilhete fosse um buraco de fechadura atravs do qual Cristiano pudesse conhec-la melhor por dentro.
   -  isso! Voc sempre diz as coisas certas, Isabel.
   "Eu tambm tenho um buraco de fechadura, Rosana. Mas Cristiano quer espiar pelo seu..."
   - Comigo  diferente. Eu sou burrinha, Isabel. Cristiano haveria de rir de um bilhete escrito por mim. Logo ele, que sempre foi o primeiro da classe. No  isso
o que dizem?
   - Pelo menos foi isso que a me dele disse para a minha.
   - Eu no posso bancar a burra com ele, Isabel. O que eu vou fazer? Por favor, me ajude!
   - Como hoje, na aula de redao?
   Lentamente, Isabel abriu o fichrio. L estava a folha, com o poema feito na aula de fsica:
   Nos teus braos me abandono,
   ao teu lado sou mulher...
   "Voc vai receber o meu poema, Cristiano..."
   - Aqui est, Rosana. Um texto de meu estoque.  s copiar com sua letra e colocar seu nome. Tudo o que voc quer dizer ao Cristiano est a.
   Rosana pegou a folha, meio em dvida.
   - Como pode ser? Eu... nem sei o que dizer...
   "Voc nunca sabe o que dizer, minha querida...", em pensamento, Isabel gozava a amiga.
   - Pode deixar que eu digo por voc.
   - Mas... ser que o que est escrito aqui serve para o Cristiano?
   - Como uma luva.
   O nibus encostou naquele momento e comeou a engolir a fila de estudantes.
   - Obrigada, Isabel. Voc  demais!
   - Corra, se no, voc perde o nibus.
   - Passe na minha casa s trs, no quero me atrasar.
   - Tchau, Rosana.
   A menina ficou vendo o nibus se distanciar, levando sua amiga, sua rival, e a declarao de seu amor, de seu carinho, que serviria para aumentar ainda mais a
paixo de Cristiano por Rosana.
   "O condenado  forca prepara sua prpria corda..." e o pensamento de Isabel oscilava entre a resignao e o desespero.
   De uma janela do nibus, a carinha de Rosana surgiu, jogando um beijo para a amiga:
   - Eu te adoro, Isabel!
   Isabel sorriu e devolveu o beijo. Agora no havia ningum olhando. A menina deixou correrem as lgrimas represadas por seu orgulho.
   "Todos me adoram... E quem me ama?"


     7 - S, com o inimigo

   - Al...
   - Senhorita Iluso?
   - Ah,  voc, Fernando...
   - Puxa, que voz mais desanimada! Acho que eu merecia um pouco mais de entusiasmo por ter ficado a manh inteira procurando minha iluso. Onde voc se escondeu?
   - Acho que voc no tem nada com isso, Fernando.
   - Isso  o que se pode chamar de um fora. S que eu sou surdo  palavra no. Eu insisto at ouvir o sim que eu quero ouvir.
   - Olhe, eu perdo a sua insistncia se...
   - No quero que voc perdoe. Quero que voc a aceite!
   - Desculpe, Fernando,  que hoje eu no...
   - Como fazer para dobrar voc, Isabel?
   - Voc j sabe o meu nome?
   - Sei muito mais. Sei que voc est triste e sei tambm que voc est com a tristeza errada.
   - Como sabe disso?
   - Certas coisas no se precisa saber. Basta sentir.
   - Pois voc sente errado. E no tem nada que se meter comigo. Me deixe, t legal? Me esquea!
   - Eu nunca vou esquecer daquela noite, naquele jardim...
   - Tchau, Fernando.
   O fone j estava longe do ouvido de Isabel, pronto para ser violentamente desligado, e a menina no pde ouvir a ltima frase de Fernando:
   - Eu quero voc, menina malcriada!

   ***
   - Como ? Ser que a feiosa, que a gorducha, vai aprender a lio?
   A menina encontrou o inimigo especialmente cruel. A rachadura partia-lhe o rosto em dois, deformava-o, agravando e justificando a crueldade.
   - Ento voc acha que Cristiano ia olhar para voc com olhos diferentes daqueles com que se olha a priminha gorducha e de culos? Priminha...
   Isabel estava sem defesa. Dizer o qu? Defender-se como, se, naquele momento, tudo o que ela desejava era nunca ter nascido?
   - A grande escritora! A grande poeta que cria versos de amor para ajudar a rival a roubar-lhe o namorado! Burra... Trouxa... Vamos! Diga que ama Cristiano. Diga-o
com as palavras mais fortes, use os termos mais sinceros, arrebente a alma no papel! Quanto melhor voc fizer, mais Cristiano vai ficar apaixonado... por Rosana!
   Sobre a pequena mesa de trabalho, l estava mais uma carta. Mais um ofertrio da prpria vida de Isabel para Cristiano. Ela se punha  em suas mos, mas seria
Rosana que Cristiano iria abraar.
   Ao lado da carta, uma pilha dos seus livros preferidos. Paul Valry, Vincius, Ferreira Gullar, Garcia Lorca, Pablo Neruda... Quantos amores j haviam sido conquistados
com as palavras daqueles poetas? Ser que eles tambm sentiam o mesmo desespero que ela? O mesmo cime? A mesma vontade de morrer?
   Impossvel sentir tanto cime e tanto desespero por tantos amores desconhecidos. O seu caso era diferente. S havia um namorado a conquistar. E ela o estava conquistando...
para outra!
   Despiu-se lentamente. Abriu o chuveiro e deixou que a gua morna corresse farta por todo o corpo, na esperana talvez de lav-lo por dentro, limpando aquela tristeza
to imensa.
   Enxugou-se em frente do inimigo, sem vergonha do que ele pudesse dizer. Amanh, no cinema, Cristiano estaria lendo a carta, apaixonando-se ainda mais por Rosana,
distanciando cada vez mais a esperana de, um dia, prestar maior ateno a Isabel. Isabel, a priminha gorducha, a amiga feiosa,, a escritora de culos, o cupido
de espinha no nariz.
   Aproximou-se do inimigo rachado, disposta a eliminar pelo menos a espinha. Mas ela no fora muito grande e j havia secado. Tateou o rosto em busca de outra.
Era to feio assim aquele rosto? To repulsivo que um garoto como Cristiano no podia encontrar nada nele que o atrasse? E aquele corpo? Estava mesmo gordo? No
tinha aquelas curvas, aquelas saboneteiras, aquela penugem sensvel  carcia em sentido contrrio, como dizia Vinicius de Moraes? No seriam atraentes aqueles pequeninos
seios que muito bem poderiam ter servido de frma para taas de champanhe?
   "Vem, Cristiano, tomar do meu champanhe... Vem me buscar inteirinha, Cristiano...'"
   Naquele momento, talvez Rosana estivesse pensando no mesmo rapaz com a mesma intensidade. Isabel sentiu como se estivesse traindo a amiga, ambas partilhando o
mesmo leito com o mesmo sonho, a mesma paixo, a mesma entrega.
   Ah, aquele beijo, naquele jardim... Teria sido a escurido a benfeitora que transformara sua feira em fascinao e permitira que, por um instante, Cristiano
se sentisse atrado por ela?
   Aquele beijo.. , a pele cheirosa daquele peito de sonho em seus lbios... a correntinha a roar-lhe o rosto... o hlito acariciante se aproximando... os lbios
quentes procurando a umidade dos seus...
   Ah, bendita penumbra que lhe permitiria, ao menos uma vez, a ventura de abandonar-se naqueles braos adorados!
   Depois, porm, com a mesma penumbra, no laboratrio, tudo tinha sido diferente. S houvera decepo, dor, catstrofe.
   "Ah, Cristiano amado, por que no me tomou novamente, como sua boneca, naquele laboratrio gelado, no meio das formas mumificadas, do formol, no meio dos cidos
e das frmulas, das cobras e das aranhas? Da Linamarina? No meio da Linamarina, do p branco dos sonhos destrudos, das garotas presas em frascos, da Lina e da Marina,
da Linaisabel, da Isabelmarina, da Linaranha, Marinaranha, aranhaisabel, cobracristiano, aranha e cobra... Ai, cobra e aranha, aranha e cobra, a aranha quer a cobra,
a cobra busca a aranha, a aranha se debate na gaiola de vidro, vai quebrar-se o vidro, j vem vindo a cobra, vem, Cristiano, me abraa, me enlaa, me arregaa, me
enleia, tateia, procura, me aperta, me pega, me toma, te amo, sou sua, estou nua, te quero, te pego, te levo comigo, me leva contigo, me faz viver, me faz feliz,
me faz mulher! Ah, Cristianoooo... Ahhh..."


     8 - A paixo e o tormento

   - Ai, menina, como estou nervosa! Ser que ele vem mesmo? - Chegamos muito cedo, Rosana.  claro que ele vem. Em frente do cinema, Isabel sorria, tentando acalmar
a ansiedade da amiga.
   - Ainda faltam dez minutos...
   - O meu cabelo est bom? Voc acha que esta blusa combina?
   - Voc est linda, Rosana. Agora pare de bancar a criancinha.
   - Ah, Isabel, voc devia ter visto a cara do Cristiano quando ele leu o poema...
   - ? Ele disse alguma coisa?
   - No. Ele no disse uma palavra. Sorriu, e foi como...
   - E foi como se o sorriso improvisasse uma resposta de amor...
   - Hum? Acho que foi isso mesmo. Ele  inteligente at calado! No meio da pequena multido que atravessava a avenida, Isabel reconheceu algum.
   - Tchau, Rosana, a vem Cristiano. Se voc ficar nervosa, sem saber o que dizer, entregue esta carta para ele.
   - Outra carta? Mas a letra no ...
   - No se preocupe. Eu sei imitar a sua letra.
   - Ah, Isabel, voc  demais! Nem sei como agra...
   - Ento no agradea. Tchau, Rosana.

   ***
   Nem olhou para trs. No agentaria testemunhar o encontro Beijinhos, palavras vazias, sorrisinhos, mos dadas...
   Quando entrou na livraria, porm, tinha um ar despreocupado como se no cinema, quase vizinho, no tivesse deixado um pedao de si mesma. Isabel procurou as estantes
do fundo, que sempre tm menos gente e menos luz. Ao acaso, uma edio luxuosa: Fernando Pessoa.

   A Isabel  fingidora,
   finge to completamente
   que chega a fingir que  amor
   o amor que deveras sente...

   Lia com um sorriso vago, como se l uma velha anedota. Outro fingimento. No era ela a rainha dos fingidores? Fingia to completamente naqueles versos e cartas
que Cristiano acreditaria naquele amor. E ficaria cada vez mais apaixonado... por Rosana.
   "Fingir no  difcil, quando se finge que se finge.  s usar alguns exageros, alguns smbolos..."

   "Smbolos? Estou farto de smbolos...(...)
   Que o sol seja um smbolo, est bem...
   Que a lua seja um smbolo, est bem...
   Que a terra seja um smbolo, est bem...(...)
   Mas que smbolo , no o sol, no a lua, no a terra, (... )
    Mas (... ) a costureira que pra vagamente  esquina
   Onde se demorava outrora com o namorado que a deixou? (... )
   Smbolos? No quero smbolos...
   Queria -
   Que o namorado voltasse para a costureira ".


   A pouca luz que lhe iluminava a pgina diminuiu, coberta por algum s suas costas.
   - Renovando as iluses, senhorita Iluso?
   Fernando! Sempre Fernando, em todas as horas em que Isabel queria ficar s.
   - Fernando Pessoa... - leu o rapaz nas mos de Isabel. - Gosta de Fernando Pessoa? E da pessoa do Fernando, voc gosta?
   Isabel suspirou.
   - Poderia gostar mais, se a pessoa do Fernando fosse menos insistente e soubesse escolher melhor a hora de aparecer...
   - Acho que quem escolheu foi voc. Eu trabalho de tarde nesta livraria.
   - Oh,  mesmo? Eu no sabia...
   - Tem muita coisa que voc no sabe, Isabel.
   - E que certamente voc gostaria de me ensinar, no ?
   - Voc no encontraria professor mais dedicado...
   - Por qu, Fernando? O que voc quer?
   - Voc, Isabel.
   - O que voc v em mim? Uma gorducha, de culos, feiosa e sem graa, que ningum tira para danar?
   - No. Isso  o que voc v. O que eu vejo  uma garota adorvel, que se esconde nos jardins para no correr o risco de algum tir-la para danar...
   - O que  que voc entende, Fernando? O que  que voc sabe?
   - Sei, por exemplo, que Fernando e Isabel foram dois reis espanhis que se amaram muito e at ajudaram a descobrir a Amrica...
   - Pois saiba que eu no sou espanhola, no toco castanhola e no quero descobrir coisa nenhuma. De mim, da verdadeira Isabel, voc no sabe nada!
   - Aquilo que eu no sei, nem posso saber que no sei. Por que voc no me conta? Vamos sair um pouco? Que tal uma volta?
   - Mas voc no est trabalhando?
   - Tenho direito a uma folga. Depois, minha me  a dona da livraria...

   ***
   Tinha sido bom encontrar o chatinho do Fernando. O rapaz ajudou-a a passar aquelas duas horas. Poderia vir a ser um bom amigo. Desde que parasse de cham-la "senhorita
Iluso",  claro. Com aquele passeio, depois que Isabel pegou Rosana no cinema, tinha at no que pensar enquanto fechava os ouvidos para no ouvir as descries
da amiga.
   - Nem deu para ver com quem era o filme, menina! Imagine que o Cristiano...
   Fernando, na verdade, tinha sido menos chato, menos cnico. Mas Isabel s enxergava Cristiano quando olhava para Fernando, s ouvia Cristiano quando tentava escutar
a voz de Fernando.
   -...me deu at vontade de rir! Mas, num momento, eu estava nas nuvens, porque Cristiano...
   "Por qu, Cristiano?'', em pensamento, Isabel interrompeu a descrio de Rosana. "Por que a Rosana, Cristiano? Por que no eu, a Isabel? Por que no eu, que escrevi
o amor que Rosana sente por voc? Voc acreditou, Cristiano? Ento por que no pde ler este mesmo amor nos meus olhos?"
   -...eu nem sabia o que fazer, Isabel. Mas, pelo jeito, ele sabia pelos dois e estava louco pra me ensinar...
   "Eu tambm queria aprender, Cristiano. Eu tambm queria ensinar, Cristiano. Juntos, ningum saberia mais de amor do que ns dois... Eu aprendi muito com aquele
beijo, com aquela noite, com aquele jardim, com seus lbios, com seu corpo, com seu calor, com seu cheiro... mas,.."
   -...bem, eu no queria deixar, mas foi a que ele...
   - Cala a boca, Rosana!

   ***
   - Cala a boca!
   - Oh, oh! Mais uma cartinha? Quantas j escreveu para Cristiano? Cinco? Dez?
   - Cala a boca!
   O inimigo rachado ria-se srio, como se fizesse de cada escrnio uma bofetada. Esbofeteada, surrada por ela mesma, Isabel punha no papel todo o tormento e toda
a paixo que a perseguiam, que aumentavam a cada dia e a cada carta que renovava o namoro de Rosana e Cristiano. O mesmo papel que, mais uma vez, seria entregue
pela amiga ao seu querido. E que serviria para aumentar a paixo de um lado e o tormento de outro.
   Ah, tormento que eu no posso confessar...
   O que eu escrevo  a verdade, eu no minto,
   eu declaro tudo aquilo que eu sinto,
    e  a outra que teus lbios vo beijar...

   Sei que quanto mais verdade tem no escrito,
   mais distante eu te ponho dos meus braos,
   pois desenho o paralelo de dois traos
   que na certa vo perder-se no infinito.

   Estes versos feitos pra te emocionar
   justificam todo o amor que tens por ela
   e as carcias que esses dois amantes trocam.

   E eu te excito, sem que venhas a notar
   que esses lbios que tu beijas so os dela,
   mas so minhas as palavras que te tocam...

   - No! Onde estou com a cabea? No posso entregar isto! Cristiano no pode saber que... Nunca! Eu prometi. Preciso escrever outra carta. Outra carta... Ah, Cristiano,
eu morro...
   - Isabel! Telefone pra voc!
   Mais uma vez o grito histrico da me. Mais uma vez seria Fernando. Ela j estava se acostumando a ele.
   - Al...
   - Al, priminha?  voc?
   - Cristiano...

     9 - A segunda promessa

   Cristiano! Era ele. Era ELE! E queria falar com ela. Pedira segredo e que ela o encontrasse em meia hora no parque de diverses. Seria melhor assim pois, se ele
viesse  sua casa, sua me ocuparia todos os espaos, ofereceria lanches, no os deixaria conversar a ss.
   A ss! Por que a ss? O que haveria para segredar? Ser... ser que ele tinha conseguido ler nas entrelinhas das cartas que Rosana entregava? Ser que ele pudera
descobrir... No! E se ele e Rosana tivessem brigado e ele afinal descobrira que Isabel era o seu verdadeiro amor? Bem, isso at que seria de se esperar porque...
Que nada! Impossvel! Como o amor dele por Rosana poderia diminuir depois de todas aquelas cartas e poemas? E Rosana no lhe tinha dito que era impossvel encontr-lo
sem alguma cartinha? Que "Onde est a cartinha?" era a primeira frase que Cristiano dizia logo ao se encontrarem? Depois, mesmo que os dois tivessem brigado, por
que haveria Cristiano de lembrar-se dela? Nunca mais haviam se falado desde aquele maldito encontro no laboratrio...
   "No.  melhor esquecer as esperanas. Mesmo que ele desista de Rosana, por que haveria de olhar para mim? Por que para a feiosa? Para a gorducha? Voc no vai
desistir da Rosana, Cristiano. Eu no vou deixar. Eu vou continuar te amando, Cristiano. E voc vai me amar cada vez mais atravs das minhas cartas. Mesmo que voc
nunca venha a saber disso, meu amor..."

   ***
   Num dia de meio de semana como aquele, o parque de diverses estava quase deserto. Uma bab uniformizada trocava sorrisinhos com
   o sorveteiro enquanto a criana de quem ela deveria estar cuidando aproveitava para verificar de que cor ficariam seus sapatinhos brancos depois de mergulhados
na lama at os tornozelos.
   Ele chegou lindo como nunca. Ou como sempre. Como sempre chegava e nunca saa do pensamento de Isabel.
   - Oi, priminha!
   - Oi, Cristiano...
   L vieram os beijos estalados e l ficou Isabel recordando, num breve momento em que se permitiu fechar os olhos, aquela noite, aquele jardim e aquele beijo to
diferente destes estalos reservados  priminha... Naquela noite, no escuro, ela no fora a priminha para Cristiano. Fora mulher. Depois... bem, depois era agora.
   - Priminha...
   Isabel ficou ouvindo, quase sem prestar ateno, as palavras que pareciam um discurso de introduo a algo mais importante. Cristiano falava da sua adaptao
 cidade, de todas as cidades onde estudara por causa das viagens do pai, da turma boa que j conseguira formar, tudo entremeado por risadas e "priminhas queridas".
   - Quer um cachorro-quente, priminha querida?
   - No, eu... estou de regime. ,.
   Atrs da montanha-russa, vazia e parada, parecia um bom lugar para conversar. Ali, os dois estariam protegidos dos poucos olhares indiscretos que aparecessem.
   Um ventinho frio comeou a soprar e a enorme estrutura de ferro rangeu enferrujadamente. Cristiano tinha acabado de devorar o cachorro-quente e de limpar com
as costas da mo um bigode de mostarda.
   - Priminha, como da outra vez, eu quero lhe falar de Rosana... Isabel sentiu-se arrepiar com o vento e com o rangido irritante dos ferros.
   - Sabe? Nunca encontrei algum como ela. Nunca pensei que eu pudesse apaixonar-me desse jeito. No ria, prima, com voc eu me sinto tranqilo. No tenho vergonha
de confessar o que sinto. Rosana  linda, mas  muito mais...
   As palavras de Cristiano tornavam-se cada vez mais claras para Isabel, e a menina encolheu-se como a proteger-se de algo mais assustador que parecia estar por
vir.
   - Eu no esperava que ela tivesse tanta sensibilidade, priminha. Alm da beleza. Engraado... voc a conhece h tempos, e deve saber disso melhor do que eu: Rosana
 tmida como um coelhinho. Quando estamos juntos, ela quase no fala. Apenas sorri.  muito carinhosa,  claro, mas pessoalmente quase no d pra notar a cabecinha
maravilhosa que ela tem. S que, quando ela escreve...
   - Quando ela escreve? O que  que tem?
   - O mundo todo se enche de luz, priminha! Voc nem pode imaginar. Todos os dias Rosana chega com uma carta, com um poema, com uma prova de amor que me tira o
flego. Bem, eu nunca fui muito ligado em literatura, sabe? Mas Rosana abriu para mim um mundo diferente. Um mundo de pensamentos, de palavras, de emoes... Um
mundo que eu desconhecia.
   - Verdade? Voc est gostando deste novo mundo?
   - Voc deveria ler o que ela me escreve, priminha. Eu leio e releio cada carta cem vezes e no me canso. Acho que nunca li coisas to lindas em toda a minha vida...
   - Ora, que exagero...
   - Exagero? Se voc diz isso  porque no sabe do que Rosana  capaz. Ela  muito mais linda escrevendo do que pessoalmente!
   - Oh, voc acha mesmo?
   - Rosana e voc so amigas h muito tempo. Na certa voc j deve ter lido algum poema dela, no?
   - Bem... alguns...
   - E o que acha deles?
   - Hum... no so maus...
   - No so maus?! So maravilhosos! So as palavras mais puras e verdadeiras que eu jamais li!
   - Ah, Cristiano, voc acha isso mesmo?
   - Prima, eu estou cada vez mais gamado pela Rosana. No comeo, foi aquele rostinho que me atraiu, mas o rostinho era pouco perto do esprito que Rosana escondia
dentro dele. Agora, nem penso mais na beleza de Rosana. As cartas dela me emocionam at mais do que quando eu a beijo. Quase que prefiro estar no meu quarto, relendo
as cartas, do que junto dela...
   - Oh, Cristiano, no fale assim...
   - Ah, priminha, eu vou amar Rosana enquanto viver! No me importa se ela  linda ou se ela  feia. Importa que...
   - Voc a amaria, mesmo se ela fosse feia?
   -  claro que sim!
   Freneticamente, Isabel agarrou os dois braos de Cristiano.
   - Diga: voc a amaria? Mesmo se ela. fosse gorda? Me diga: mesmo se...
   - Mesmo se eu fosse cego! Bastaria que algum lesse para mim o que ela escreve!
   Aos poucos, Isabel afrouxou a fora dos dedos nos braos de Cristiano.
   - Voc... voc no sabe o que est dizendo, Cristiano...
   Uma garoa fina e gelada comeou a se fazer sentir. Os rangidos dos ferros da montanha-russa percorriam a espinha de Isabel de alto a baixo. Atrs do sorriso que
ela conseguiu representar a custo, seu rosto estava branco.
   - E voc... me trouxe aqui s para dizer isso, Cristiano?
   O rapaz baixou os olhos. Num momento, toda aquela paixo, todo aquele entusiasmo, deu lugar a certo desnimo.
   - No... na verdade eu fico at contente ao lhe contar tudo isso. Eu quero que voc saiba da minha felicidade. Afinal, foi voc que me abriu um novo mundo ao
trazer Rosana  minha festa, no foi? E, depois, ajudou nosso primeiro encontro. Eu lhe devo muito, priminha.
   A garoa estava gelada e, caindo vagarosamente, j tinha encharcado os dois. r
   - Voc prometeu nos ajudar, lembra-se? Eu lhe pedi, naquela manh, no laboratrio...
   - Sim, eu me lembro...
   - Voc  a madrinha deste amor maravilhoso, prima...
   - O que voc quer que eu faa? Que os abenoe?
   - Eu agora preciso de um pouco mais. Sabe? Eu nunca fui um bom aluno. Eu s sei jogar futebol...
   - Como? Mas a tia Adelaide disse...
   - Isso so coisas de me. Ela vive fazendo uma propaganda maluca, onde eu apareo como ela gostaria que eu fosse, no como eu sou. Eu sempre passei raspando,
prima. Principalmente em portugus e literatura. E me sinto um pouco humilhado diante do talento de Rosana. O que ela h de pensar de mim?
   - Ela te ama, Cristiano...
   - Disso eu sei. S quem ama muito pode escrever o que ela escreve. Mas, e eu? Eu no sei mexer com as palavras. No sei responder a ela com a mesma... a mesma...
   - Ternura...
   - . Ternura. Eu sinto essa ternura, mas no sei como demonstrar. Eu quero me mostrar a ela, sem qualquer vergonha, Isabel. Mas na hora acho que falta... falta
aquela...
   - Paixo...
   - Isso. A paixo est por dentro,  to grande quanto a dela. Mas...
   Isabel sugeria cada palavra, cada sentimento, como se fosse um jogador a descartar sobre um pano verde. E o rapaz comprava todas as cartas.
   - Ser que no falta amor, Cristiano?
   - No. Isso no falta. Eu quero aquela menina como ningum h de querer. Tenho certeza. Mas, quando estou com ela, s consigo contar piadas...
   - Pode ser um novo estilo de namoro. Piadas de amor...
   - No brinque, prima. Eu no posso parecer ridculo diante daquela garota maravilhosa...
   - Fique tranqilo, ento. Tenho certeza de que ela o ama como voc .
   - Mas eu queria poder amar Rosana do jeito que ela me ama. Eu queria poder escrever para ela com a mesma ternura, com a mesma paixo com que ela me escreve. Mas
eu no tenho jeito, priminha...
   - Ah, Cristiano... voc tem tantos jeitos...
   O rapaz tomou nas suas as mos de Isabel e trouxe-as ao peito. Olhou profundamente a menina.
   - Isabel, me disseram que voc  tima em redao. Foi por isso que eu lhe pedi esta conversa. Preciso de mais um favor.
   Isabel deixou as mos apoiadas sobre o peito do rapaz. Sentiu pulsar-lhe o corao, num dueto com o seu.
   - Prima, voc poderia escrever alguma coisa para eu dar a Rosana?
   A ferragem rangeu de novo, quase abafando a surpresa de Isabel.
   - Como?!
   - S de vez em quando, priminha. Me ajude! Uma cartinha ou um verso, para que Rosana no se decepcione comigo...
   - Mas como  que eu posso...
   - Escrever uma carta de amor para outra garota? Voc pode tentar, no pode? Talvez escrevendo como se fosse para o seu namorado. Depois eu copio, passando tudo
para o feminino. Voc tem namorado, no tem?
   - Eu? Tenho...  claro...
   - Como  o nome dele?
   - O nome dele? ... Fernando...
   Fernando! Droga! Foi o primeiro nome de que ela se lembrou. Se Fernando soubesse...
   - Ento escreva uma carta de amor bem bonita para Rosana como se fosse para o Fernando. Vai dar certo, voc vai ver. Ser o nosso segredo!
   - Cristiano, eu...
   - Ah, voc prometeu, priminha! Me ajude!
   -... sim, eu prometi...
   - Pois prometa de novo!
   Segurando-lhe os ombros, o rapaz a olhava fixamente nos olhos. Isabel deixou que um arrepio lhe percorresse todo o corpo molhado e murmurou:
   - Eu... eu prometo, Cristiano...


     10 - Perdas de amor

   O inimigo, rachado de alto a baixo, dividia Isabel. Uma das duas deveria amar Cristiano, e a outra devia estar apaixonada por Rosana. Mas ela sentia-se inteira
de Cristiano, cada pedacinho de seu corpo e de sua mente vibrava, pulsava, pertencia a Cristiano. S que Cristiano pertencia a Rosana. Como, ento escrever uma carta
de amor para a rival? Como ajudar seu amado a declarar-se mais ainda  garota que a estava destruindo? "Mas eu prometi, eu prometi..."
    sua frente, folhas rabiscadas, papis amarrotados, um respondendo ao outro, um querendo agarrar, outro querendo ser agarrado, um forando, outro permitindo.
Era como se a mo esquerda escrevesse para a direita, era como se um ouvido falasse para o outro.
   Por sobre aquela diviso, pairava a voz rachada do inimigo, provocando, torturando, gozando, mas, ao aumentar a dor, fazendo ferver ainda mais o caldeiro de
misturadas paixes, promessas e desesperos que queimavam Isabel por dentro.

   Antes de ti, Cristiano,
   eu nem sabia sequer,
   fui metade de mim mesma,
   fui pedao de mulher...


   Vou deixar meu peito aberto,
   Rosana de amor sem fim, sem
   porteiro, sem vigia,
   para que entres em mim...

   - Ah, Isabel, idiota! Ouve, sou teu inimigo... Esquece essa promessa cretina. Ele adora o que voc escreve. Ele adora voc!
   Do outro lado do corredor, mesmo com duas portas a separ-los, a voz do inimigo fazia-se ouvir perfeitamente por Isabel.
   "As palavras de Rosana devem ser mais ingnuas. Acho que Cristiano espera que seja assim. Ai, Cristiano..."

   Era metade de mim,
   era pedao inocente,
   pois eu era quase nada
   e pensava que era gente...

   Entre aqui dentro, Rosana,
   aqui no h nada de mal,
   mas vais achar em meu peito
    um verdadeiro arsenal!

   - Voc cozinha os versos com o seu melhor tempero, no ? E pra qu? Pra morrer de fome enquanto os dois se empanturram com a emoo que voc criou?
   "Quando as cartas so de Cristiano, acho que tm de ser mais fortes, mais ousadas. Ah, Cristiano, eu quero que voc seja assim..."

   Hoje sou r, sou culpada,
   sou o sul e sou o norte,
   confesso meu crime de vida
   que d luz em vez de morte!

    s transformar em granada
   os pulmes e o corao,
   espalhando aos quatro ventos
   estilhaos de paixo!

   - Cretina! Rasga isso! Seja mulher, Isabel. V atrs dele. Lute por ele!
   "Sou Isabel... Sou mulher, me escute... estou perdida..." Sou gente! Socorro, Cristiano... me escute ... estou perdida..."


   Quero que venham juizes
    dispostos a me condenar
    e te nomeiem carrasco
   pra eu viver a te adorar

   Pois que venha a medicina,
   pois que berre, pois que zangue!
   Ns vamos juntos gritar:
   - Um... dois... trs... sangue!

   - Rasga! Esquece!

   Cristiano, me agarra, sou tua!
   Vem morar dentro de mim!

   Te entrega, Isabel!
   CALEM A BOCA! TODOS VOCS!

   ***
   - Fique tranqila, Rosana. Aqui a gente pode conversar sossegada. A me saiu, com enxaqueca e tudo. Temos a tarde inteirinha pra fofocar  vontade.
   Rosana experimentou um batom de Isabel, espremendo os lbios.
   - Precisa trocar este espelho. Nem sei como voc consegue se maquiar com esta rachadura... Como  que quebrou?
   - Sei l. Quebrou. S isso.
   Isabel j havia separado uma pilha de livros e cadernos, mas olhou sorrindo para a amiga.
   - Voc no estava pensando exatamente em estudar biologia quando veio para c, no ?
   Rosana olhou atravs do corredor, sorrindo de volta para a amiga, que a aguardava no quarto. Deu uma ltima olhada no espelho e andou sonhadoramente at  cama
de Isabel, onde se jogou, sem se preocupar em tirar os tnis.
   - No sou como voc, Isabel. Voc est sempre interessada em tudo, ligada em todas as coisas. Eu tenho s uma idia fixa. Uma idia fixa que j dura quase um
ms. No consigo pensar em nada seno em Cristiano. Voc no sabe o que isso significa...
   - Ah...
   A pilha de livros caiu das mos de Isabel. A menina ajoelhou-se no cho e comeou a reempilh-los apressadamente, como se um rio estivesse por correr ali e pudesse
arrast-los consigo.
   - Posso fazer uma idia, Rosana...
   - Acho que voc no pode. Ningum pode saber o que  amar algum como Cristiano. Eu... eu acho que estou te traindo, Isabel...
   - Traindo? Como?
   E a pilha de livros espalhou-se de novo pelo cho.
   - Estou escondendo um segredo de voc. Cristiano adora suas cartas...
   - Adora? Adora mesmo?
   - E como! Eu vou ser grata a voc o resto da vida por ter me impedido de passar por burra diante dele. Cristiano parece to cado por mim quanto eu por ele. No
comeo, nos primeiros dias, ele se conteve, como se... como se...
   - Como se quisesse deix-la  vontade...
   - Exatamente. Deixar-me  vontade. Isso acabou fazendo com que o nosso namoro girasse quase que s atravs das suas cartas, Isabel. Daquilo que voc escrevia...
Mas, depois, ele se abriu. E como se abriu! Ele  um amor, mas  tambm um gnio. O segredo que eu queria lhe contar so estas cartas dele. Veja.
   Rosana abriu a bolsa e tirou um macinho de cartas mil vezes relidas.
   - Hum? Cartas de Cristiano?
   - Eu no queria mostrar a ningum, Isabel.  lindo demais. Eu queria guardar essa beleza s para mim. Cime. Cime das cartas como cime dele. Mas voc tem o
direito, no ?  voc quem pe no papel o amor que eu sinto por ele. Acho que voc tem o direito de ler a resposta.
   Como se estivesse pouco interessada, Isabel folheou rapidamente os papis que conhecia quase de cor. A letra de Cristiano, firme, reproduzia cada uma daquelas
palavras que ela havia criado na solido torturante do seu quarto, perseguida pela voz do inimigo rachado, do outro lado do corredor.
   - Ento? O que acha?
   - Eu? Hum... no sei, parece bom... algum estilo...
   - Algum estilo?! O que  isso, Isabel? Voc est perdendo a sensibilidade? A esto as idias mais malucas, mais francas, mais lindas que eu j li. Ser amada
desse jeito  muito mais do que eu sonhei na vida. E voc ainda diz que tem algum estilo!
   - Voc gostou mesmo, Rosana?
   - Desculpe, mas eu acho que finalmente voc encontrou um rival literrio  sua altura. O que ele me escreve  muito mais inspirado do que as cartas que voc escreve
por mim...
   - Hum...
   -  tudo to bom, um sonho to maravilhoso com Cristiano, que eu chego a sentir medo.
   - Medo? Amor e medo... parece que no combinam.
   - Medo de ser desmascarada por Cristiano. Um garoto to sensvel, uma cabea to incrvel... Quando estamos juntos, ele no me provoca. Conversa, ri e brinca,
s. Toda a beleza que ele tem por dentro fica para as cartas e para as poesias. Acho que ele sentiu que eu, pessoalmente, no consigo dizer o que voc escreve nas
cartas.
   - ? E voc? O que faz?
   - Eu dou todo o carinho que posso, mas banco a tmida, sorridente, meio calada, para disfarar. Eu queria poder falar, abrir a boca e dizer tudo o que eu sinto
por ele. Mas eu sei que, na hora, no vou conseguir dizer nada e ele vai se decepcionar comigo. Isabel, eu tenho medo. Medo de que Cristiano...
   - Est bem!
   - Como?
   Isabel bateu os livros sobre a mesinha. Agarrou Rosana pela mo e arrastou a amiga para a sala.
   - O que est havendo, Isabel?
   - Voc vai falar com Cristiano e dizer tudo o que sente. Agora!
   - Mas...
   Decidida, estendeu o telefone para Rosana.
   - Pegue. Ligue para ele.
   - Ora, mas eu lhe disse...
   - No tenha medo. Eu fico ao seu lado e vou falando.  s repetir.
   - Isabel, voc est vermelha... O que houve?
   - Voc quer falar com ele, no quer? Pois fale! Eu estarei pendurada no seu outro ouvido. Fale com ele e repita tudo o que eu disser.
   Colocou o fone nas mos de Rosana e discou ela mesma.
   - Isabel! No...
   - Al.
   Do outro lado da linha, a voz de Cristiano.
   - Eu... Cristiano, eu...
   - Rosana! Oi, meu amor... Eu estava agora mesmo relendo aquele seu poema que...
   - Que bom! Relendo o meu poema... Isabel colou a boca ao ouvido livre de Rosana.
   - Repita: No, no releia o que j sabe, Cristiano. No quero que o meu amor pare no tempo da jura de ontem. Oua o amor de hoje, que ser bem menor que o de
amanh...
   - No, Cristiano... no...
   - Al? Rosana? O que est havendo?
   - Vamos! Repita o que eu disse!
   - No! Eu, eu... Cristiano...
   Com o rosto em brasa, Isabel arrancou o fone das mos de Rosana e tapou parcialmente o bocal com uma toalhinha de croch que enfeitava a mesa do telefone. E falou,
inflamada de paixo.
   - O que eu escrevo, Cristiano,  menos do que eu posso dizer. E o que eu posso dizer, agora,  menos do que eu sinto por voc. Tanta verdade se perde no caminho
do corao ao crebro, do crebro  boca, da boca  mo, da mo ao papel... Agora eu quero que voc saiba tudo o que eu sinto, sem perdas pelo caminho. Sem desperdcios.
Quero que voc percorra os meus caminhos de volta, dos papis ao corao.  aqui!  aqui dentro que voc tem de morar, meu amor!
   - Ah, Rosana... A sua voz est to diferente... A ligao est abafada... Parece outra pessoa...
   -  que hoje eu no sou eu, pois sou eu mesma. A mesiTa^do princpio do caminho, sem perdas de amor pela estrada, sem bloqueios, sem vergonhas. Eu sou agora
aquele verdadeiro eu, que voc ainda no conhece.  esse eu que voc deve compreender, conhecer e amar!
   - Eu... eu te amo, Rosana...
   Ao lado da amiga, ouvindo s uma das partes, Rosana comeou a chorar.
   E Isabel falou. Falou, quase sem dar tempo para a resposta do outro lado. Sem tomar flego. Envolveu Cristiano, virou-o, manipulou-o, excitou-o, passando da frase
mais arrebatada ao sussurro mais tmido, como uma pequena gata felpuda que rolasse no colo do dono.
   - Rosana! Eu quero te ver. Agora!
   - Ento venha correndo. Me encontre na casa de Isabel. A me dela no est. Hoje eu quero ser sua, Cristiano. Venha me buscar.
   De olhos molhados, sem entender nada, Rosana olhava atnita para Isabel.
   O telefone foi desligado com deciso. Isabel estava de p, respirando como se tivesse acabado de correr a maratona, com os olhos arregalados e um sorriso cnico,
de triunfo, nos lbios.
   - Pronto. Ele vem a, prepare-se.  todo seu. Eu vou  livraria da me do Fernando.
   - E eu? O que digo quando ele chegar?
   - Aja. Eu j disse tudo.

II - Paixo que mata



     11 - Um pouco de veneno

   Isabel era um fantasma, naquela manh. O primeiro sinal acabara de soar quando ela chegou ao colgio. No teve coragem de juntar-se ao tumulto dos estudantes
correndo para as classes. Encostou-se  parede, abraada ao fichrio e ao livro de qumica inorgnica, e ficou vendo esvaziar-se o ptio.
   Inorgnica... no-orgnica... sem rgos... sem organismo... sem entranhas... sem vida... mas cheia de paixo, cheia daquela paixo de um lado s, sem retorno,
sem correspondncia, sem esperana, sem futuro...
   Sem futuro mesmo, depois daquela tarde. A me tinha chegado,  claro, com sua enxaqueca e a surpresa de encontrar o sobrinho com Rosana em pleno sof da sala.
   - Na maior atracao! Pouca vergonha! O que vo dizer os vizinhos? Ah, se seu pai estivesse vivo...
   - Ele est vivo, mame!
   Depois,  noite, conselho de famlia. Exigncias de compromissos. Os pais de Rosana, bem  antiga, imaginando todas as safadezas, falando em exames mdicos, derramando
lgrimas e ameaas.
   Mas discutir o qu? Ali estavam os dois, amando-se como nunca, como nunca querendo compromissos, jurando amor eterno.
   - Praticamente duas crianas! - lamentava-se tia Adelaide. - No  cedo demais para se falar em papis assinados?
   Todos os papis que importavam, porm, j tinham sido escritos. E todos por Isabel. Foram eles que geraram e alimentavam ainda o amor daqueles dois. E destruam
a esperana da autora. Em muitos deles, ficara apenas a marca de uma lgrima. Pingada na solido de seu desespero.
   - Senhorita Iluso... Isabel... No vai subir para a classe? Fernando! Sempre Fernando, sempre presente, nunca Cristiano!
   - J vou, Fernando.  s um instante. Suba voc. -- Eu espero.
   - No, por favor. V. Eu preciso deste instante. Faa isso por mim.
   Fernando aproximou-se suavemente. Tomou-lhe a pontinha do queixo e ergueu o rosto de Isabel em direo ao seu.
   - No, Fernando, por favor...
   Com a palma da mo, procurou afastar o rapaz,
   - Eu preciso ficar s, s um momento...
   - Isabel...
   Seus dedos enroscaram-se em alguma coisa que saa da camisa de Fernando, quando ela se esquivou dos lbios que procuravam os seus. Com o arranque, algo veio partido,
pendurado em sua mo.
   "Uma correntinha... Esto na moda as correntinhas...", pensou a menina.
   A correntinha caiu no cho. Abaixaram-se os dois para recolh-la, mas...
   - Ei, vocs dois! O que esto fazendo fora da classe? Brucutu! O bedel-chefe. Uma massa enorme que devia ter sido carcereiro antes de empregar-se naquele colgio.
O pavor de todos os alunos, o perseguidor implacvel. O pesadelo dos cabuladores, dos conversadores, dos namoradores.
   - Nada... a gente j ia subir...
   - J deviam ter subido, vocs sabem muito bem. Ningum pode ficar no ptio depois do sinal!
   - Sim,  que...
   - Pra diretoria j! Os dois!
   A mo de Fernando apertou a de Isabel, para dar-lhe apoio. Mas aquilo no era necessrio. Ouvir um discursinho de dona Albertina, a diretora obesa e sorridente
que era a alma daquela escola, no assustava ningum. Quem assustava era Brucutu.

   ***
   Apertando mais do que o necessrio, Brucutu arrastou os dois pelos braos at  diretoria.
   Sem saber explicar por qu, Isabel sentia um clima de insegurana ao longo do corredor.
   - O que est havendo? - estranhou o enorme bedel.
   A porta da diretoria estava fechada.  sua frente, a jovem professora de filosofia esmurrava a porta, nervosamente.
   - O que houve, dona Olga? - perguntou Brucutu.
   - Hein? No sei. Estou preocupada. Eu tinha uma reunio com dona Albertina agora, mas ela est trancada a dentro. No responde...
   - Bom, eu tenho a chave mestra. Se a senhora quiser...
   - O que est esperando? Abra logo!
   Brucutu largou os dois e tirou um molho de chaves do bolso.
   - Est difcil... A outra chave est na fechadura, do lado de dentro...
   - Anda logo! - insistiu nervosamente a professora Olga.
   A fechadura cedeu com um estalo. Brucutu abriu a porta e agarrou novamente os braos de Isabel e Fernando, acompanhando-os para dentro da diretoria.
   As cortinas estavam fechadas e as luzes todas acesas. Isso era anormal, para aquela hora da manh, mas era assim que dona Albertina trabalhava em seus seres.
   - Dona Albertina? - Isabel ouviu atrs de si a voz da professora de filosofia. - Onde a senhora est?
   A enorme mesa de trabalho, antiga e esculpida a mo por algum artista esquecido h muito tempo, estava coberta de papis. Contendo-se para no gritar de dor por
causa do aperto de Brucutu, Isabel foi empurrada  frente, em direo  mesa. Por isso, ela foi a primeira a encontrar o cadver de dona Albertina.

   ***
   O resto do dia foi uma espcie de pesadelo circense, muito diferente do que Isabel imaginaria para um enredo de filme.
   Morta dona Albertina, a autoridade mxima era a professora Virgnia, uma vice-diretora cuja utilidade na direo da escola ainda no tinha sido percebida por
ningum. Seu primeiro ato como autoridade mxima foi um verdadeiro faniquito, que s serviu para quase transformar em comdia o trgico fim de dona Albertina.
   Depois que a fizeram engolir um copo com gua aucarada, a professora Virgnia trancou a diretoria e proibiu que qualquer pessoa entrasse l.
   - Ai, ai, ai, coitada de dona Albertina! Como  que uma coisa dessas foi acontecer? O corao dela era to forte... Algum chamou o pronto-socorro?
   Foi necessrio convencer a professora Virgnia de que o pronto-socorro teria pouco o que fazer com um cadver e que o certo seria chamar a polcia, como em todos
os casos de morte sbita, sem assistncia mdica.
   - A polcia?! Na nossa escola? Que horror! Coitada da Albertina! Albertina! Albertina!
   Entrou na sala da diretora como uma louca e trancou-se, sozinha. L dentro, teve outro ataque, aos berros, como se fosse possvel acordar a morta.
   Quando a porta se abriu, a professora Virgnia parecia convencida de que a morta estava mesmo morta. Determinou que a diretoria fosse trancada de novo, com cadver
e tudo.
   Engoliu mais gua com acar e, sem parar de lamentar-se, mandou dispensar todos os alunos e funcionrios. Mais tarde, teve de agentar a fria do investigador,
que chegou duas horas depois de chamada a polcia.
   - Quem lhe deu ordem para dispensar todo mundo?
   - N-ningum... - gaguejou a professora Virgnia, sem saber o que fazer com as mos. - Foi para os alunos no ficarem impressionados...
   - E para estragar o meu trabalho!
   - N-no... eu pensei que um ataque do corao, como esse... No tinha sido um ataque do corao, afinal. Pela projeo da escola e de dona Albertina, a autpsia
foi feita naquela mesma tarde. No corpo obeso daquela educadora sorridente, querida por todos, lder de todos, encontraram uma boa dose de cianureto.
   J anoitecia quando um carro da polcia foi buscar Isabel em casa. A me veio junto, naturalmente, carregando a pior crise de enxaqueca de que a filha se lembrava.
   Mas a me teve de aguardar fora da sala da diretora, enquanto o investigador interrogava sua filha. Na sala, apenas a polcia, a professora Virgnia, que ainda
no tinha descoberto o que fazer com as mos, as quatro testemunhas daquela manh e o professor de qumica.
   O investigador procurava reconstituir a cena da descoberta do cadver. Perguntava, interrompia, duvidava. Sentada ao lado de Fernando, quase sem ouvir o interrogatrio,
Isabel recordava claramente todo o cenrio daquela manh.
   - Coitada da dona Albertina... - choramingava a professora Virgnia.
   Isabel lembrava-se da mo gorda de dona Albertina, primeiro pedao da anatomia morta que ela vira entre a mesa e a janela. Coisa feia, sem jeito, que  um cadver!
Ainda mais de algum to gordo, to grande como a diretora. Estava jogada no tapete, como se um caminho basculante a tivesse descarregado por cima da mesa. O vestido
levantado, a boca aberta, os olhos esbugalhados. Nada que pudesse lembrar a alegria, o entusiasmo e o talento daquela mulher. A morte havia levado tudo.
   - Coitadinha da dona Albertina... - fungava a professora Virgnia, como se estivesse ouvindo os pensamentos de Isabel e no o interrogatrio profissional do investigador.
   To gorda... Coitada! Sempre falando em fazer regime. Garantira que, no comeo do ano letivo, estava decidida a emagrecer. Dissera que, desta vez, a deciso era
para ser levada a srio.
   Isabel sorriu e, por um instante, visualizou a mesa da diretora naquela manh. Lembrou-se claramente de um papel de bombom. Pobre dona Albertina! De dia, comendo
saladinhas e exibindo sua vontade de emagrecer como se fosse um trofu e,  noite, fechada na diretoria com seus bombons e sua gulodice, como uma criana que se
esconde para fazer reinaes.
   - Logo agora que ela estava fazendo regime... - lamentou-se a professora Virgnia.
   Daquele momento em diante no haveria mais gula ou regime para dona Albertina. No havia nem mais o papel de bombom, que desaparecera da mesa. Nela, o que havia
era um objeto, talvez um vaso, coberto por um pano.
   - Cianureto! - vociferava o investigador para o professor de qumica. - Como  que uma escola como esta guarda cianureto no laboratrio?
   O professor de qumica olhou de lado, procurando algum apoio junto a Brucutu ou  professora Olga, que parecia a mais revoltada de todos, embora soubesse controlar-se
melhor, sem fazer o papel ridculo da professora Virgnia.
   - So estudos que estou fazendo com o pessoal do curso tcnico - balbuciou o qumico. - Estamos analisando a mandioca e...
   - A mandioca?! - berrou o investigador. - Vai me dizer que a vtima foi envenenada com mandioca?
   - No...  que extramos um glicosdio da mandioca que...
   O pano que cobria o vaso sobre a mesa foi retirado. No era um vaso. Era um frasco de laboratrio. A meia distncia, mesmo de culos, no era possvel a Isabel
distinguir o que estava escrito no rtulo.
   - A autpsia encontrou cianureto, professor.
   - Pois . Neste frasco h glicosdio cianonitrila que  extrado da mandioca...
   - Cianureto?
   - . Pode-se dizer que sim.
   - A vtima poderia ter apanhado isto no laboratrio, no ? Qualquer pessoa poderia, no ?
   - Bem, dona Albertina poderia...
   - Como  que uma coisa dessas foi acontecer justo na nossa escola? - lamentou, aos soluos, a professora Virgnia, assoando o nariz com estrondo.
   O investigador exibiu um envelope plstico transparente que revelava um pouco de p branco.
   - Este envelope estava no cho, ao lado da mo da vtima. Certamente  o mesmo produto deste frasco, no ?
   - Pode ser... - o professor de qumica sentia-se esmagado.
   -Posso fazer uma anlise e...
   - Deixe isso  polcia tcnica, professor. A sua parte irresponsvel o senhor j fez, deixando cianureto no laboratrio, ao alcance de qualquer um!
   O professor protestou timidamente:
   - Ora, no  bem assim. H muitos produtos potencialmente perigosos em qualquer laboratrio. No caso da linamarina...
   - Como?! O que o senhor disse?
   A surpresa de Isabel interrompeu o professor.
   - Linamarina.  o nome que se d a esse glicosdio.
   - A esse veneno, o senhor quer dizer! - cortou o investigador. As recordaes daquela triste manh, na escurido do laboratrio, voltaram todas  memria de Isabel.
Linamarina! Os dois nomes de mulher que, juntos, agora eram o nome da morte. H quase um ms algum mexera naquele frasco. Na penumbra, sem culos, cheia de lgrimas,
no comeo da longa estrada que haveria de afast-la cada vez mais do seu grande amor, Isabel no poderia ter reconhecido aquele algum. Sua nica certeza  que no
poderia ter sido a diretora. O vulto de avental branco no era grande. Nem obeso.
   - Coitada da dona Albertina! - choramingou de novo a vice-diretora.
   - Dona Virgnia! Quer retirar-se? A senhora est atrapalhando o interrogatrio!
   Para a polcia, o caso pareceu simples. A porta trancada, com a chave do lado de dentro, o envelope contendo linamarina, as janelas fechadas e quatro testemunhas
que haviam encontrado, juntas, o cadver eram provas suficientes para uma concluso de suicdio. Motivos para o suicdio? No cabia  polcia deduzir. Afinal, onde
est mesmo a lgica de algum que decide tirar a prpria vida? Uma vida obesa, alegre e produtiva? Uma vida de mulher, uma morte de mulher, uma morte com nome de
mulher? Uma morte chamada linamarina?
   Lembrou-se do poeta Joo Cabral de Melo Neto e de Morte e vida severina, aquele poema maravilhoso. Uma vida severina... uma morte linamarina... Tudo se juntava
como uma carga pesada demais para Isabel. A recordao daquele beijo louco, daquele Cristiano louco do jardim, daquela noite louca, quando tudo havia comeado. Depois,
a desiluso no laboratrio, as cartas e os poemas cheios de seu amor desesperado. Agora, aquela morte to estpida, to grotesca, e a lembrana do vulto de branco
mexendo na linamarina. Mexendo na morte.
   Suicdio... E o que Isabel tinha feito no dia anterior? No tinha sido ela mesma a disparar o tiro de misericrdia na nuca de sua ltima esperana de felicidade?
O que tinha sido aquela declarao ao telefone? O que tinha significado forar o encontro de Cristiano e Rosana em sua prpria casa? No fora isso uma espcie de
suicdio? Um desejo de acabar logo com aquele sofrimento que s crescia, a cada hora, a cada verso, a cada lgrima?
   Afinal, o que era a morte? Uma massa de banha jogada grotescamente sobre um tapete de diretoria? E o que era a vida, o que seria a vida, agora que a ligao entre
Cristiano e Rosana tornara-se pblica e definitiva? O que seria ento a morte seno um alvio, um basta a toda aquela tortura? O que seria a morte? Severina como
a do retirante nordestino? Linamarina como a da diretora obesa e sorridente? Como seria a outra morte, a da menina gorda, da garota feia, da poetisa de culos, espinha
no nariz e inimigo rachado?
   "Mais vale um fim trgico do que uma tragdia sem fim...", recordou ela, ainda na diretoria, mal sentindo a delicada presso da mo de Fernando sobre a sua.
   Olhou para o tapete vazio onde havia descoberto o cadver da diretora. E foi o seu prprio cadver que viu ali.

   ***
   - Oh, Isabel, entre. Est mais calminha? Carinhosamente, a professora Virgnia fez Isabel entrar na pequena sala da vice-diretoria, to intil quanto a ocupante.
   - Bem... eu  que estava nervosa, no ? Mas voc compreende, tenho certeza. Albertina morta, assim, sem mais nem menos... Ns ramos muito amigas, muito amigas
mesmo...
   - Sinto muito, dona Virgnia...
   - Ns ramos to amigas... Ela se preocupava tanto comigo... Imagino o seu choque ao encontrar o corpo da pobrezinha. Voc parecia to nervosa l, durante o interrogatrio...
Mas no era para menos, no ? Estvamos todos muito nervosos...
   Isabel sentiu-se pouco  vontade. O que queria aquela mulher? Ser que faria outro escndalo, na frente dela? Um cansao pesado comeou a tomar conta do seu corpo.
As cargas que ela tinha de suportar estavam pesadas demais para seus ombros de menina.
   - Por que voc se surpreendeu com o nome do veneno, querida?
   - Eu? Me surpreendi? No me lembro...
   - Acho que foi s impresso minha, no foi? Vai ver foi o nervosismo que... Como era mesmo o nome do veneno?
   - O nome, professora? No sei... cianureto, parece...
   - . Cianureto...
   A professora Virgnia olhava brandamente para a aluna. Mas era um olhar ausente, como se no esperasse resposta.
   - Voc no sabe...  claro que voc no sabe. Pobre amiga morta! Eu j lhe disse que ns ramos muito amigas, no disse? Ela se preocupava tanto comigo... Imagine:
tinha cismado que eu devia me aposentar. Queria que eu descansasse. Veja s... Ela trabalhava tanto, era to dinmica... E eu  que precisava descansar. Coitada
da Albertina...
   A professora Virgnia continuava a falar, como se a menina no existisse, repassando para si mesma aquela amizade que terminara de modo to triste.
   Isabel levantou-se e saiu silenciosamente da sala.
   -  tudo to trgico, Albertina...


     12 - Da morte no sei o dia

   Fernando tomou delicadamente a mo de Isabel, assim que ela abriu a porta de casa, e olhou-a firme nos olhos. - Isabel, eu preciso falar com voc.
   - Fernando... Oi. Entre...
   Isabel afastou-se e o rapaz caminhou em direo  mesa coberta de livros e papis.
   - Voc estava estudando?
   - No... eu...
   - O que  isto? - perguntou Fernando levantando uma folha de fichrio.
   - Nada... ...
   H o instante da chegada
   E o momento da partida.
   Quanta vida eu j vivi?
   Quanta resta a ser vivida?

   So dois espelhos quebrados,
   Dois vezes sete de m sorte,
   l vivi quatorze anos,
   quanto resta para a morte?

    fcil v-la chegando
   em cada instante que passe,
   pois se comea a morrer
   no momento em que se nasce.

   Vou caminhando pra morte,
   no decidi meu nascer.
   Da morte no sei o dia,
   Mas posso saber!

   -  do Augusto dos Anjos. Acabei de copiar...
   - Do Augusto dos Anjos? Quando ele tinha quatorze anos? Isabel suspirou e jogou-se na poltrona, abraando as pernas e apoiando a testa nos joelhos.
   - Est bem, Fernando. Se voc quiser conversar sobre poesia, vamos conversar sobre poesia.
   Fernando ajoelhou-se em frente  poltrona e, com as mos, obrigou Isabel a erguer o rosto para ele.
   - Olhe para mim, Isabel. Acho que seria bom conversarmos depois daquela loucura toda. Durante o interrogatrio, eu senti que voc tinha alguma coisa a dizer.
Alguma coisa que a incomodava...
   -  claro - sorriu a menina. - Um cadver de 120 quilos incomoda qualquer um.
   - No brinque, Isabel. Voc manipula a todos, que eu sei. Mas comigo  diferente. Voc no consegue me enganar.
   - Eu no quero enganar ningum.
   - S a voc mesma, no ?
   - Voc veio aqui para brigar comigo, ?
   - Eu s queria te ouvir. Passamos por isso juntos e talvez voc precise me dizer alguma coisa.
   - Mesmo que eu tivesse alguma coisa a dizer, de que adiantaria? A polcia j encerrou a investigao, no foi? J concluram por suicdio, no concluram?
   - E voc? Chegou a alguma outra concluso?
   - No importa se cheguei ou no, Fernando. O que importa  a concluso da polcia. E eles j tm a deles.
   - Talvez sim, talvez no, Isabel. Ouvi dizer que eles acharam muito estranho o fato de no haver qualquer impresso digital no frasco de veneno. S no envelope
plstico.
   - Como assim?
   -  isso a. Dona Albertina resolveu suicidar-se, calou luvas, foi ao laboratrio s escondidas, pegou o veneno, tirou as luvas, colocou o veneno num envelope
plstico, livrou-se das luvas fechou-se na diretoria e tomou alguns miligramas de cianureto. Isso tudo parece lgico?
   - Ela poderia no ter usado luvas. Poderia ter usado um leno, que na certa est agora em alguma bolsa.
   - Poderia sim. Mas, por qu?
   - Por que o qu?
   - Por que dona Albertina se preocuparia em no deixar impresses digitais no frasco de linamarina?
   - No sei, Fernando. Por que dona Albertina se mataria?
   - A est outra pergunta sem resposta. Por que ela teria decidido suicidar-se?
   - Sei l... um momento de loucura, o nervosismo causado pelo tal regime para emagrecer...
   - Ora, Isabel, se gordura fosse motivo para suicdio...
   - Eu me mataria, no ?
   - Como?
   - Ah, deixa pra l!
   - Que mania voc tem de dizer que  gorda, Isabel! Voc  bem mais magra que a Rosana que...
   - Deixe tambm a Rosana pra l!
   - Est certo.
   Fernando esperou que uma pausa longa refizesse os dois daquela discusso. Depois, perguntou bem baixo, como se acalmasse uma criana:
   - Me diga, Isabel, por que voc se lembrou do regime de dona Albertina? Afinal, que eu saiba, ningum toma cianureto para emagrecer...
   - Ou linamarina...
   - Ou isso: linamarina. Por qu, hein, Isabel?
   - Por causa do bombom.
   - Do bombom? Que bombom?
   - No se lembra? Em cima da mesa dela havia um papel de bombom.
   - Acho que no notei. Fiquei o tempo todo na entrada da sala, agarrado por aquele brutamontes do Brucutu.
   - Pois eu notei. Coitada! Acho que ela fazia regime s na frente dos outros.  noite, fechava-se com seus bombonzinhos para repor todas as calorias perdidas...
   - Coitada da dona Albertina...
   - Coitada...
   - Outra coisa: por que voc se surpreendeu quando o professor de qumica falou o nome do veneno?
   - Cianureto?
   - Voc sabe que no. Quando ele falou "linamarina".
   - Eu me surpreendi? Talvez... Achei estranho um veneno ter nome de mulher.
   - Voc j tinha ouvido falar antes em linamarina?
   - No.
   - Eu acho que voc sabe de alguma coisa, Isabel.
   - No sei de nada, Fernando. No me pressione, por favor.
   - Eu quero ajudar, Isabel. Fale comigo.
   -  melhor sair, Fernando. No tenho nada a dizer.
   - Por favor...
   - Me deixe em paz, Fernando!

   ***
   Isabel, porm, no conseguiu ficar em paz. Por que um cadver de 120 quilos haveria de desabar sobre todos os seus problemas? Por que aquilo, ainda por cima?
Por que uma morte to real, to mastodntica, a concretizar todas aquelas idias sombrias que, cada vez mais, apareciam em seus poemas e ocupavam seus pensamentos?
   E ela sabia de alguma coisa. Sabia mesmo? O que ela tinha visto? Algum de avental branco, h quase um ms, mexendo no frasco de linamarina? E estaria mexendo
mesmo? No poderia ser qualquer outro frasco ao lado daquele? Quem acreditaria nela? A polcia? Como ficaria o seu testemunho depois que confessasse estar escondida
no laboratrio, na penumbra, sem culos e lavada em lgrimas? E ser mesmo que ela gostaria de expor-se assim, a todo mundo, a Cristiano, a Rosana, a Fernando, 
professora Olga,  professora Virgnia? Sem culos, no escuro, chorando por um amor impossvel para ela, mas que ela mesma ajudara a criar para outra garota?
   Mas ela sabia de alguma coisa. Seria justo calar-se? Adiantaria falar? Ah, se ela tivesse Cristiano... Se tivesse aquele peito forte sobre o qual debruar-se,
procurando apoio, sentindo aquele cheiro bom, aquele calor a abrasar-lhe os lbios, o gosto salgado daquela pele penetrando-lhe o organismo, misturando-se ao seu
sangue, fazendo dos dois um nico ser...
   Mas ela estava s. No tinha ningum.

   Da morte no sei o dia,
   mas posso saber!


    13 - A sombra de um pesadelo

   - Que coisa mais ridcula, Rosana! - Falar em casamento? Ridculo por qu, Isabel? Ele quer e eu quero.  o que mais quero na vida. Se for preciso, eu invento
at o que no houver, s para os meus pais e os pais dele no mudarem de idia. Eu quero Cristiano para mim. Inteirinho e para sempre!
   - Mas vocs ainda so...
   - Somos um homem e uma mulher, Isabel. Perdidamente apaixonados um pelo outro. Isso basta. E voc tem tudo a ver com isso; minha amiga. Voc ajudou nosso amor
a crescer. Voc ser a nossa madrinha!

   ***
   - Mandou me chamar, dona Virgnia?
   - Entre, Isabel. Sente-se.
   A menina aproximou-se da cadeira indicada. Mas permaneceu de p.
   - No  nada importante, Isabel. Disseram que voc anda meio preocupada, calada, desligada das aulas. O que est acontecendo, minha filha? Ainda impressionada
com o suicdio de dona Albertina?
   - Hein? Com o qu?
   - Com o suicdio de dona Albertina... Suicdio?
   - Com o suicdio? ... acho que sim...
   A vice-diretora aproximou-se de Isabel e colocou as mos maternalmente sobre os ombros da aluna.
   - Sei que foi duro para voc, minha querida. Foi duro para todos ns. Mas todos temos de reagir. A vida continua. E a sua est apenas no comeo. Vamos tentar
esquecer tudo isso...
   Esquecer?
   - Ah, dona Virgnia, no vai dar para esquecer enquanto...
   - Enquanto o qu, Isabel?
   - N-nada, professora...
   A vice-diretora, que assumira o posto de dona Albertina, estava agora controlada, sem os choramingos histricos daquela manh. Mas adiantaria falar com ela? Contar-lhe
tudo?
   Estava claro que no.

   ***
   - Me...
   - O que foi, Isabel?
   - Posso entrar, me?
   A menina aproximou-se da cama da me e ajoelhou-se na beirada, como costumava fazer muitos anos atrs, quando havia mais um ocupante naquela cama.
   - Me, eu preciso falar com voc.
   O quarto s estava iluminado pela luz fria da televiso. Recostada na cama, a me de Isabel estranhou um pouco a visita da filha.
   - Est na hora da novela, Isabel. Voc nunca me procura na hora da novela...
   "Voc  que no quer ser interrompida na hora da novela, mame...", pensou Isabel.
   - Me... eu preciso de ajuda...
   - De ajuda? Que espcie de ajuda quer agora? Voc no  a senhorita-sabe-tudo?
   - Eu no sei nada, mame...
   - O que quer, ento?
   - Eu... eu estou sofrendo, mame...
   - O que voc tem, minha filha? O que est sentindo? Vou telefonar para o mdico e...
   - No, mame. Eu no estou doente. ...  outra coisa.
   - Outra coisa? Mas que outra coisa, menina?
   Isabel avanou pela cama de gatinhas, como se quisesse novamente ser um beb em busca da proteo do colo quente da me. Enrodilhou-se, de cabea baixa.
   - Nem sei como contar. Mas eu preciso de ajuda...
   - Ajuda? O que voc andou fazendo, Isabel?
   - Me... voc amava papai?
   - Se eu amava seu pai... Que conversa  essa, Isabel?
   - O que voc faria se o amasse e ele no amasse voc? Como se sentiria?
   - Ora, Isabel, isso no so conversas para uma menina da sua idade!
   - Mame, me oua: o que voc faria se tivesse encontrado o nico amor de sua vida e ele estivesse apaixonado pela sua melhor amiga?
   - Deixe de besteira, Isabel! Voc  muito criana para essas bobagens!
   - Eu sou mulher, mame! Eu no sou mais criana. Eu preciso de ajuda!
   - Voc precisa  parar de ler essas bobagens que voc anda lendo, Esses livros andam enchendo a sua cabea de idias que no so para a sua idade.
   - Por favor, mame...
   - J acabaram os comerciais, Isabel. A novela j vai comear. V para seu quarto agora e deixe de pensar em besteira.
   - Por favor...
   - E feche a porta. Minha cabea est me matando!

   ***
   - Essa menina anda estranha... No sei...
   - Vai ver, ela sabe de alguma coisa.
   - No creio. Ela teria dito. Para mim ou para a polcia. Talvez esteja imaginando alguma coisa. Ela  muito inteligente.
   - Quer que eu fique de olho nela?
   - No sei... talvez... Mas discretamente. Veja com quem ela anda. Com quem fala. Vai ver, no h nada com que nos preocupar... Mas eu no gostaria que ela dissesse
alguma besteira pelos corredores sobre a morte de dona Albertina.
   - Deixe comigo.
   Brucutu fechou a porta silenciosamente.

   ***
   Isabel no poderia entrar em aula naquela manh. Tambm no poderia ficar em casa, dividindo o espao com  enxaqueca da me. Quando o sinal tocou chamando para
a primeira aula, continuou a andar, sem rumo, pelos quarteires que rodeavam a escola.
   Era uma daquelas manhs geladas de outono e as ruazinhas estavam desertas. A poucas quadras da escola, uma pracinha minscula, sem bancos nem nada, sobrevivia
 especulao imobiliria, exibindo apenas uma rvore. Mas era uma rvore antiga, grande, majestosa, com galhos pesados que pendiam sobre o cho, formando quase
uma tenda verde-escura sob a qual Isabel se abrigou.
   Debaixo da rvore, a grama no mais crescia, e a menina se sentou no cho batido, meio coberto de folhas cadas e papis de sorvete.
   J no tinha lgrimas para chorar. Todo o estoque havia empapado o travesseiro naquela noite, enquanto a me assistia  novela. Depois, embalada por seu prprio
pranto, Isabel adormecera.
   Lembrava-se perfeitamente do sonho. Ela era a mesma princesa de um reino distante, a mesma de seus sonhos de criana. Mas agora era uma moa,  beira do mesmo
lago de guas cristalinas onde os sapos aguardavam, pacientes, que uma princesa como ela resolvesse beij-los e transform-los em prncipes. A gua a atraa, e ela
desabotoou o corpete de fios de ouro. Estava s, sob um multicolorido dossel de folhagens atravs do qual a brisa compunha uma sinfonia acompanhada pelo murmrio
suave das guas do lago. Despiu-se completamente e mirou-se refletida no espelho da gua.
   J no era uma criana. Seus cabelos soltos desciam pelos ombros, apontando para seios maduros, eretos, pedintes do carinho de uma mo masculina. Suas mos desceram
pelo corpo, contornando uma cintura estreita, um ventre reto e percorrendo uma pele eriada, excitada, mida. Acariciou as prprias coxas e demorou-se descobrindo-se
mulher. Um calafrio gostoso percorreu-lhe a espinha, subindo at  nuca e espalhando-se pelo crebro como se fosse o gostinho do chocolate que se derrete mansamente
na boca.
   Estava pronta. Pronta para o prncipe encantado que viesse, que a tomasse, que aspirasse seu perfume e a carregasse nua em seu cavalo branco.
   Uma gargalhada infernal arrancou-a de seu devaneio. Refletida junto ao seu corpinho indefeso, a imagem de um gigante ameaador aproximava-se cuspindo baba e palavres.
Sentiu-se agarrada por braos peludos, e um hlito demonaco de alho e enxofre a sufocou.
   Aterrorizada, olhou para a carranca do agressor.
   Era Brucutu.
   Tentou gritar, tentou desvencilhar-se do abrao obsceno. Debateu-se, sentindo aquelas mos imundas a apalp-la, a desvendar cada canto do seu corpo, a apertar,
a invadir, a profanar, enquanto a gargalhada transformava-se num arfar ofegante.
   Sufocada, quase desmaiando, viu quando uma mo de ao abateu-se sobre o ombro do monstro e o arrancou de cima dela.
   Era um cavaleiro altivo, de armadura de prata, pronto a defend-la at  morte. Foi um combate de sonhos. As espadas reluziam e entrebatiam-se soltando fagulhas.
Gotas de sangue salpicavam-lhe a pele nua cada vez que um golpe chegava mais perto. At que, com um volteio, a espada do cavaleiro fez um crculo de prata no ar,
arrancando a cabea de Brucutu, que rolou pela relva e foi desaparecer nas guas do lago.
   O cavaleiro cravou a espada na terra. Olhou para a princesa e, ainda com o elmo abaixado, ajoelhou-se no cho, oferecendo seus prstimos.
   Quem seria ele? Pendendo sobre a armadura, uma correntinha balanava.
   A correntinha!
   Sem vergonha da prpria nudez, Isabel atirou-se em seus braos.
   De repente, todo o cavalheirismo do heri pareceu desvanecer-se. Ele aceitou o abrao, esmagando-a com o peso da armadura. Onde ela buscava carinho, foi dor que
encontrou. Outra vez foi agarrada brutalmente, agora arranhada em ferros como se uma jaula se fechasse sobre ela.
   - No!
   Desesperada, ergueu o visor do elmo. Era Brucutu novamente!
   - No! Socorro!
   - Calma, Isabel! Eu estou aqui. O que houve?
   Outros braos a enlaavam. Desta vez sob a rvore da praa, aquecendo-a do frio da manh. Ela havia sonhado tudo de novo, acordada, como se tivesse enlouquecido.
   - Calma, meu amor... Me abrace. Est tudo bem...
   - Oh, Fernando... voc...
   Deixou-se soluar baixinho, fungando como uma criana sobre aquele peito amigo que a toda hora se fazia presente.
   Os dois deixaram passar todo o tempo de que Isabel precisava. E ela precisou de bastante tempo.
   - Desculpe, Fernando. Eu ando nervosa, eu ando meio louca, falando sozinha, eu...
   - Est bem. Voc no est sozinha agora.
   Era um bom amigo. Um amigo que Isabel at poderia ter aproveitado melhor se no o tivesse conhecido no pior momento de sua vida. Deixou-se abraar, e sentiu aquecer-se
aquela manh que soprava gelada por entre as ramagens da pracinha.
   - Obrigada, Fernando. Foi bom voc ter aparecido.
   -  a primeira vez que voc diz isto.
   - Como me encontrou aqui?
   - Por acaso. Estava passando...
   - Estava passando, nada! Voc me seguiu.
   -  claro que sim!
   - Ah, Fernando! Voc no toma jeito...
   - Est mais calma agora? Quer falar sobre o que a est perturbando tanto?
   - Eu... nada...  que... a morte da dona Albertina...
   De que adiantaria falar-lhe de Cristiano? De que adiantaria dizer-lhe de sua desesperana? Afinal, havia a morte da diretora, que os dois haviam testemunhado.
Aquela morte os unia. Ento era melhor tratar daquela morte. Fernando no tinha nada a ver com a outra. A outra morte, a morte-menina, que estava cada vez mais prxima.
   - Voc quer saber o que eu sei, Fernando, no ?  muito pouco, nem sei se adianta...
   Fernando nada disse. No insistiu. Se ela achava que devia falar, que falasse. Do modo e no tempo que quisesse.
   - Pode no ser nada, Fernando. Mas, se for alguma coisa, isso quer dizer que dona Albertina no se suicidou. Ela foi assassinada.
   Desviou os olhos do rapaz. O que tinha que falar agora era bem difcil, mas Fernando no precisava saber de todos os detalhes.
   - Voc j me falou de suas suspeitas, Fernando. Mas  que eu vi... eu vi uma coisa que... Bem, no primeiro dia de aula, eu entrei no laboratrio sozinha. Nem
sei por qu, acho que curiosidade, s...
    claro que ela no falaria de Cristiano!
   - O laboratrio  escuro, com aquelas cortinas. Mas eu vi algum, algum de avental branco, que entrou e pegou alguma coisa. Eu me escondi e acho que ele no
me viu. Depois fui ver o frasco em que ele tinha mexido. Na hora, no desconfiei de nada, mas depois...
   - O que estava escrito no frasco, Isabel?
   - Estava escrito "linamarina"... Fernando soltou um assobio:
   - Quer dizer que algum, s escondidas, pegou um pouco de veneno? Voc viu quem era?
   - No. Eu... eu estava sem culos. Eles estavam sujos e...
   - Viu se era jovem? Ou velho? Se era homem ou mulher?
   - No... eu no tenho certeza.
   - Era alto? Baixo?
   - S vi que no era gordo.
   - Como?
   - No era obeso. No podia ser dona Albertina.
   -  muito pouco, Isabel. Para a polcia  muito pouco. Uma garota, sem culos, escondida na escurido do laboratrio, v algum...
   - Que no  gordo...
   - Que no  gordo, pegando um pouco de veneno. Ele pode ter mexido em outro frasco, no pode?
   - Pode. S que, se mexeu na linamarina, temos um indcio.
   - Muito pequeno. Quase nada, para a polcia.
   - Mas, se for real, temos algum, trs semanas antes do crime...
   Fernando sorriu, paciente, como se explicasse a tabuada a uma criana.
   - Isabel, todas as semanas, todos os dias, antes e depois da morte de dona Albertina, tem sempre algum mexendo nos frascos do laboratrio. Isso no prova nada.
   - Sei que no prova nada, Fernando. Sei que muitos funcionrios e professores esto autorizados a trabalhar com os produtos do laboratrio. Mas algum entrou
l e pegou um pouco de veneno para matar dona Albertina. E eu vi quando ele fez isso! Eu sei que ele fez isso!
   - Ora, Isabel! Que mania a sua de sempre saber tudo! Se voc falar disso  polcia, o mximo que eles vo pensar  que existe uma menininha querendo bancar a
detetive...
   Isabel calou-se por um instante, avaliando as palavras de Fernando. Sem olhar para o amigo, perguntou:
   - E voc, Fernando? O que pensa?
   - Eu penso que voc  a garota mais adorvel que eu conheo. No me importa se voc quer bancar a adulta ou se quer bancar a detetive. Para mim, voc  uma criana
assustada. Uma criana que eu quero proteger. Proteger e am...
   Criana?! O sangue subiu ao rosto de Isabel. Ela se ps de p, furiosa, disposta a... Mas um outro rosto, uma carantonha sinistra, recortada em meio s sombras
indefinidas da folhagem, calou o protesto que estava pronto a explodir em sua garganta.
   - O qu? Fernando, veja!
   A folhagem mexeu-se e Fernando levantou-se apenas a tempo de correr, afastando os galhos pesados, e perceber o vulto de algum que desaparecia na esquina oposta.
   Isabel refez-se da surpresa e alcanou o amigo.
   - Quem era, Fernando? Voc viu? Acho que algum estava espionando a gente.
   - Espionando? Chega de bancar a detetive, Isabel. Deve ser um moleque qualquer.
   - No parecia um moleque, Fernando. Que horror! Me abrace, por favor...
   - Nem precisa pedir...
   O rapaz enlaou carinhosamente a menina e esperou que aquele coraozinho recuperasse os batimentos normais.
   - Fernando, acho... acho que estou tendo outro pesadelo: eu juraria que era Brucutu.
   - Brucutu? Bobagem! Se fosse ele, j nos teria agarrado pelas orelhas. Ns estamos cabulando aula, esqueceu-se?


    14 - A ltima carta


   - Isabel! Aconteceu alguma coisa? O que faz aqui? Voc nunca veio ao meu escritrio...
   - Papai, preciso falar com voc.
   - Mas, agora? Estou no meio do...
   - Papai, eu nunca pedi nada para voc. Estou pedindo agora.
   - Bom, mas no domingo que vem...
   - No posso esperar pelo domingo, papai. Preciso de voc j.
   - Certo. Mas  que...
   - No pode me arranjar cinco minutos, papai?
   - Oh,  claro que posso! Venha, filhinha. O trabalho pode esperar. Vamos at  lanchonete. Quer um suco? Um guaran?
   S o pai falou, at chegarem  lanchonete. Mandou vir o suco de laranja que Isabel concordou em aceitar e pediu um conhaque, desculpando-se com o frio daquele
fim de manh.
   - E ento, minha filhinha? Voc no devia estar na escola a uma hora dessas?
   - Sa mais cedo, papai. Precisava falar com voc.
   - Oh, voc sabe que pode contar comigo! E ento? O que est havendo com a garotinha do papai?
   - A sua garotinha j cresceu, papai. Cresceu sem nunca ter conversado com voc.
   - ... voc sabe, eu e sua me...
   - Mas agora eu preciso de voc.
   - Pois fale, meu amor. Sou todo seu, voc sabe. Voc sempre foi a queridinha do...
   - Pare com esses diminutivos, papai. Por favor. Me trate como gente. Me trate como um ser humano!
   - Oh, oh, minha querida est mesmo brava hoje. Mas eu vou lhe dizer o que fazer. Olhe!
   Com um grande gesto, retirou a carteira do bolso. Pinou teatralmente algumas notas, dobrou-as, pegou a mo de Isabel, colocou o dinheiro sobre a palma e fechou-lhe
os dedos, mantendo sua mo a apertar o punho fechado da filha.
   - A est. Eu entendo dessas coisas. Nada como uma tarde de compras para mudar o humor da minha garotinha.  um presente extra do papai. Procure uma loja bem
elegante e compre alguma coisa bem bonita para voc. Um vestido, ou um desses... desses bluses coloridos de que vocs tanto gostam. Ah, eu lhe garanto que vai sentir-se
melhor! Ah, ah, nada como uma boa compra para tirar essas bobagens da cabea da queridinha do papai. Est vendo? Eu tambm sei tratar voc como gente grande, hein?
Satisfeita?
   Isabel olhava incrdula para o pai, procurando penetrar-lhe os pensamentos, como se tudo aquilo fosse um jogo prestes a acabar. O pai haveria de rir-se da brincadeira
e depois ofereceria o ombro amigo que a filha viera buscar.
   Nada disso, porm, aconteceu. O pai levantou-se, beijou-a apressadamente e jogou sobre o balco o dinheiro para pagar a despesa.
   - Agora eu preciso ir, filhinha. Foi timo voc ter aparecido, mas o trabalho... voc sabe, no ? No vai tomar o suco?
   - No tenho vontade, papai.
   - Ento? Est mais aliviada, agora? Isabel olhou o pai bem dentro dos olhos.
   - Quer nota fiscal?
   - Como? No entendi...
   - Nada, no, papai. Adeus.
   - Tchau, filhota. Gostei da surpresa. Aparea outras vezes. Mas no v cabular aula, hein? Olhe os estudos!

   ***
   - Mas como, Isabel? Voc no vai almoar?
   - Estou sem fome, mame. Tomei lanche na escola.
   - Desse jeito voc vai desaparecer. Vai ficar doente.
   - Mame, hoje eu encontrei papai.
   A me parou a colher de arroz entre o prato e a travessa.
   - Seu pai? Mas hoje no  domingo!
   - Foi um acaso, mame. Mas tome: ele lhe mandou isto. E jogou as notas sobre a mesa.
   - O que  isso?
   -  dinheiro, mame. Ele disse que  um extra.
   - Mas...
   - Compre algo bonito com esse extra. Ele diz que faz bem. Voc deve entender disso melhor do que eu.
   Talvez, naquela tarde, a me melhorasse da enxaqueca.

   ***
   - Boa noite, meu inimigo. Voc sempre tem razo, no ?
   A imagem rachada estava sria, rosto seco, sem uma lgrima.
   - Aqui est. Est pronta a ltima carta de Rosana para Cristiano.
   - Como sabe que  a ltima?
   - Eu digo que  a ltima.
   - E depois?
   - Depois... voc me mostra o caminho.
   O inimigo abriu-se revelando o armarinho de remdios. Vrios vidrinhos, plulas para enxaqueca, calmantes, estimulantes, comprimidos para o corao...
   - Para o corao! Para o corao de Isabel, haver algo? Cuidadosamente, leu cada bula, cada recomendao, cada alerta
   sobre efeitos colaterais, sobre doses exageradas. Com deciso, escolheu um dos frascos e fechou o armrio.
   L estava de novo o inimigo. Olhando de frente, sorrindo com tristeza atrs da rachadura.
   - A carta est pronta. Oua. E no fale nada.

   E o meu amado o que diria
   se eu partisse?
   O que diria se estes versos
   no ouvisse?
   O que teria em suas mos
   seno um corpo dessangrado
   cheio de carne, de suspiros,
   de delrio apaixonado?
   Faltaria, porm, o recheio das idias,
   a loucura e a razo,
   que transforma um encontro sem graa
   em tremenda paixo!
   Mas no tema o meu querido
   que esse amor desaparea,
   pois ele  amado ao mesmo tempo
   por um corpo e uma cabea.
   O corpo ele pode beijar, cheirar,
   fazer do corpo mulher.
   Mas a cabea o possui, manipula,
   e faz dele o que quer!
   Haja o que houver, do meu amor
   esse garoto foi o rei.
   Digam a ele que com corpo e cabea
   eu sempre o amarei.
   A marca desta lgrima testemunha
   que eu o amei perdidamente.
   Em suas mos depositei a minha vida
   e me entreguei completamente.
   Assinei com minhas lgrimas
   cada verso que lhe dei,
   como se fossem confetes
   de um carnaval que no brinquei.
   Mas a cabea apaixonada delirou
   foi farsante, vigarista, mascarada,
   foi amante, entregando-lhe outra amada,
   foi covarde que amando nunca amou!

   ***
   A noite j cara completamente quando Isabel voltou para casa. Enfiara a ltima carta por baixo da porta do apartamento de Cristiano. Agora, ela estava pronta.
   O frio do comeo de noite era cortante, e a menina apertou-se dentro da malhinha leve demais, apressando o passo em meio s sombras da rua mal-iluminada.
   Mas uma das sombras no cedeu ao seu passo. Destacou-se, ao contrrio, das outras e agarrou Isabel pelos braos.
   - O qu?!
   - Calada, menina. No vai acontecer nada...
   Gelada de surpresa e pavor, Isabel reconheceu o aperto, mesmo antes de erguer os olhos e deparar com aquela carranca assustadora:
   - Brucutu!
   E no era um sonho. E no viria um cavaleiro enlatado, de espada de prata, disposto a defender-lhe a honra. Aquela era apenas a realidade. Da qual nunca se acorda.
   - Quietinha... Isso  s um aviso...
   A cara brutal abria-se num esgar que pretendia ser um sorriso, enquanto as mos enormes cravaram os dedos nos bracinhos de Isabel, no limite de quebr-los como
a um graveto.
   - Um aviso, mocinha: tem gente que acha que viu coisas. Mas, vai ver, no viu nada, s quer causar confuso. E essa confuso pode prejudicar pessoas. No  isso
que voc quer, ? Claro que no quer... Seno, o causador da confuso pode ficar muito mais prejudicado ainda, sabe? Pode at deixar de ver qualquer coisa... para
sempre! Juzo... estou s avisando... Juzo! Seno...
   Um carro entrou na rua cantando os pneus e jogou a luz dos faris sobre os dois. Isabel sentiu-se empurrada e bateu contra um muro enquanto o agressor se encolhia.
Em um instante, estava novamente sozinha.

   ***
   Andou calmamente at sua casa. No estava apavorada. Mas o ataque de Brucutu tinha significado muito mais que uma ameaa de morte. Significava que ela era mesmo
uma testemunha importante. Algum que podia desmascarar o assassino da diretora. Algum que sabia demais. Algum que tinha de morrer.
   A me no estava em casa. Era a noite de jogar buraco com as amigas. Ultimamente, ela se enfeitava tanto para aquelas noites que, se Isabel no estivesse to
ocupada com o que tinha a fazer, pensaria que naquele jogo havia s um parceiro.
   - Fernando tambm corre perigo. Precisa ser avisado.
   O telefone tocou demais, mas Fernando no estava em casa. Tentou a livraria. Deixou recado.
   - E agora? Adianta ligar para a polcia? Com quem eu falo? Vo dizer que estou louca...
   Olhou para a janela fechada. Por um momento, pensou perceber o vulto enorme de Brucutu do outro lado dos batentes, pronto a estraalhar a murros a veneziana.
   - Pode vir, Brucutu. Eu no vou ter juzo.
   Nem pensou em tentar localizar a me. Muito menos o pai. Quem, ento? Quem acreditaria nela? Quem daria importncia s fantasias malucas da menina sonhadora,
metida a poeta?
   - A professora Olga!  isso!
   A professora de filosofia era a mais jovem da escola. Uma das poucas a quem os alunos chamavam de voc. Certamente no por ser jovem, mas por ser a mais amiga
dos alunos. A mais jovem, a mais amiga e uma das mais brilhantes do corpo docente. Olga acabara de defender brilhantemente uma tese de doutoramento em psicologia,
na faculdade. Alguma coisa sobre educao por induo subliminar. A professora at j tinha conversado com a classe de Isabel sobre suas idias e (naturalmente!)
a menina discutira essas idias, pois no podia aceitar isso de educar algum por induo subliminar. Um mtodo de enfiar idias  fora na cabea dos alunos, sem
compreenso nem aceitao. Uma traio pura ao direito de pensar e de escolher livremente. Pura traio. Algo com que Isabel nunca concordaria. Mas Olga era maravilhosa.
Era um charme. E apoiava as discordncias com entusiasmo. Mesmo que fossem contra ela mesma.
   No foi fcil descobrir o telefone da professora mas, com um pouco de jeito, a secretria da escola cedeu e informou o nmero a Isabel.
   - Al.
   - Olga? Sou eu, Isabel. Sua aluna. Lembra?
   - Isabel? Claro que sim. A minha contestadora predileta e a minha companheira na descoberta de cadveres. Oi, querida. Queria falar comigo?
   - Eu preciso falar com algum, Olga. E tem de ser voc.
   - Bom, se  sobre a prova da semana que vem...
   - No  prova nenhuma, Olga.  sobre o assassinato da dona Albertina...
   - Assassinato? Voc disse assassinato?
   -  isso mesmo. Desde o primeiro momento eu no acreditei que aquilo fosse suicdio. S que eu no ia falar nada. Mas o Brucutu...
   - O Brucutu? O que tem o Brucutu?
   - Ele me atacou, Olga. H alguns minutos. Me ameaou...
   - O Brucutu? Mas por qu?
   - Eu acho que sei de uma coisa, Olga. Eu acho que sou uma testemunha.
   - Todos ns somos, Isabel. Eu, voc, o Brucutu e o Fernando.
   Ns entramos juntos na diretoria, lembra?
   - No  s isso. Eu acho que testemunhei outra coisa...
   - Fique calma, minha querida. Assim, por telefone, no d para conversar. Onde voc est?
   - Estou em casa. Estou sozinha. Minha me saiu.
   - Onde voc mora? Pego o carro e chego a num instante...


     15 - Eu nunca te amei...

   Brucutu poderia muito bem ter voltado. Poderia muito bem estar agora em volta da casa, pronto para cumprir as ameaas.
   - Juzo! - disse ele.
   - Juzo! - repetia o inimigo rachado, mais cruel que de costume. - Ah, o juzo de Isabel! Ah, a paixo de Isabel! Ah, o amor de Isabel! Juzo...
   - Esse juzo eu j perdi junto com o amor que nunca terei...
   - Voc perdeu foi a vontade de lutar. De lutar por aquilo que voc quer.
   - Ah, Cristiano, Cristiano... ser que tudo que tenho feito no foi lutar por ele?
   - Voc luta pela vitria de outro exrcito. O exrcito de Rosana.
   -  o nico exrcito que tem alguma chance. O meu no pode ganhar nenhuma batalha...
   - O que tem o seu que os outros no tm?
   - Rosana  linda! E eu sou feia!
   - Ningum, nunca, lhe disse isso.
   - E que eu sou linda? Algum disse?
   - Fernando diz isso, o tempo todo. Mostra isso, o tempo todo.
   - Mas Cristiano...
   - Cristiano disse, na noite da festa.
   - Aquela noite... Ah, se aquela noite nunca tivesse acontecido! Ah, se eu nunca tivesse conhecido aquele anjo! Ah, se aquela correntinha nunca tivesse roado
o meu rosto! Ah, se a sombra da noite no tivesse disfarado a feira da bbada gorducha cada na grama do jardim! Ah, se eu pudesse esquecer aquele beijo! Ah, se
eu no fosse to feia!
   - Ningum, nunca, lhe disse isso tambm.
   - Eu digo! Voc diz!
   - Ningum diz nada para voc. No adianta. Voc nunca ouve.
   - Eu vejo, eu sinto, eu amo!
   - Sim, mas o que voc faz consigo mesma?
   - O que eu tenho de fazer, eu vou fazer. Esta noite.

   Da morte no sei o dia,
    mas posso saber!

   Aos poucos, frase a frase, Isabel estava transtornada, como se tivesse discutido por horas com a mais teimosa das criaturas.
   - E voc... voc ser minha testemunha.
   - Eu sou sempre sua testemunha.
   - Primeiro tenho de testemunhar outra morte. A primeira morte real que chegou perto de mim. A morte feia. A morte grotesca. O assassinato covarde de uma mulher
que sabia rir. Acho que eu devo isso a ela. Algum a empurrou para a morte. Ela no escolheu.
   - E voc?
   - Ningum escolhe por mim.
   - Brucutu pode escolher...
   Brucutu! Isabel imaginou aquelas mos enormes agarrando, apertando, estraalhando. Lembrou-se do sonho, do pesadelo, da dor, da nudez, da espada ensangentada,
da brutalidade. Que outro mtodo usaria Brucutu para matar? Linamarina? Um fino p branco colocado em um envelope plstico? No. Sem sangue, sem carnes dilaceradas
nem ossos esmigalhados no seria uma ao de Brucutu.
   - Ningum escolhe o meu caminho. Ningum escolhe a minha hora. Aqui est a minha escolha!
   Na palma da mo esquerda, o pequeno frasco de comprimidos.
   - Isabel...
   Na mo direita, a escova de cabelo comeou a trabalhar. A demolir. Metodicamente, Isabel golpeou o inimigo uma, duas, dez vezes.
   - Adeus! Vamos embora. Vamos juntos.
   - Isabel! Abra!
   A campainha tocou com insistncia. Depois, batidas frenticas  porta da frente despertaram parte da conscincia de Isabel..- J vou, Brucutu. J estou indo!
   - Sou eu, Isabel. Abra! Eu trouxe a polcia!
   Espalhadas pela pia e pelo cho de ladrilhos, milhes de imagens de Isabel. O inimigo se multiplicara ao infinito.

   ***
   Foi uma Isabel diferente que abriu a porta. Uma mulher. Por fora, calma, adulta, controlada.
   A professora entrou apressada e abraou a menina com o carinho de uma irm mais velha.
   - Trouxe a polcia comigo, Isabel. Podemos entrar?
   Isabel hesitou. No esperava aquela mulher com a polcia. Atrs da professora, entrou o mesmo investigador nervoso que cuidara do interrogatrio no colgio. Como
era mesmo o nome dele?
   Isabel apontou o sof da sala para os dois, como uma perfeita dona-de-casa que estivesse recebendo convidados para o ch.
   - Algumas perguntas eu deixei de fazer daquela vez, na diretoria, Isabel - comeou o investigador, sem perder tempo. - E eu sei que tambm houve muitas respostas
que voc deixou de dar. Voc  menor de idade, e eu no posso cham-la oficialmente para depor, se voc no quiser. Mas, agora, que tal colocarmos essas perguntas
e essas respostas em dia?
   Isabel hesitou novamente. Mas, depois do ataque de Brucutu, ela estava convencida de que precisava falar tudo o que sabia. O medo do que Brucutu pudesse fazer
no contava. Ela devia falar. E ningum melhor para ouvir do que a polcia.
   A professora tirou um pacote de bombons da bolsa.
   - Algum quer um bombom?
   - Obrigado.
   - No, obrigada.
   - Eu  que estou nervosa por voc, Isabel. Estou deixando de fumar e comendo doces para distrair a vontade. Um pouco de acar  o melhor relaxante que existe.
Assim, eu me livro do cncer nos pulmes e estouro de engordar!
   Ningum achou graa. Ela deixou o saco de bombons na mesinha, em frente ao sof, e ficou mordiscando um deles.
   Conscientemente, claramente, como se cumprisse uma misso, Isabel comeou a falar. Deixou de lado o triste dilogo com Cristiano, mas descreveu a visita ao laboratrio
naquela primeira manh de aulas. Disse da penumbra, da falta de culos, do vulto de avental, do frasco de linamarina, at das lgrimas.
   - Voc estava chorando? Por qu?
   - Nada,  que... eu tinha tirado um zero em redao...
   - Voc?! - sorriu a professora, que a conhecia muito bem. - Voc tirar um zero em redao?
   Em seguida, Isabel falou da conversa com Fernando na pracinha e da suspeita de que Brucutu os estivesse ouvindo s escondidas. Depois contou do ataque na rua.
Da ameaa de morte. De Brucutu.
   - Ento tudo se ajusta - comentou a professora, lambendo a pontinha do dedo suja de chocolate. - Brucutu  o culpado. Foi ele quem voc viu no laboratrio.
   Isabel sacudiu firmemente a cabea.
   - No, no podia ser ele. Mesmo sem culos, eu reconheceria facilmente aquela figura enorme. No era ele. Era algum muito menor.
   - Coitadinha... Voc passou por uma boa, no foi?
   - Voc fez muito mal em no me contar tudo o que sabia, na primeira vez, Isabel - censurou o investigador.
   - O senhor acha que eu deveria falar tudo ali, na frente de todos, at do Brucutu?
   - Est bem. Talvez voc tenha feito bem em no falar na frente do Brucutu. Mas voc poderia ter me procurado depois. No  por voc ser menor de idade que eu
no daria ateno ao que voc tinha a dizer. s vezes, um pequeno detalhe  a ltima pea que falta para fechar o quebra-cabea.
   - Estou falando agora. Disse tudo o que tinha a dizer.
   - De qualquer modo, a ameaa de Brucutu contra voc  suficiente para envolv-lo no caso at o pescoo.
   O investigador pegou o telefone e ligou para a delegacia. Do outro lado da linha, algum recebeu a ordem para que se iniciasse uma caada a Brucutu.
   - Suspeita de homicdio... Um elemento potencialmente violento...
   Desligou o telefone e voltou-se para Isabel.
   - O vulto que voc viu estava de guarda-p, no estava?
   - Estava. De avental branco.
   - Isso aponta para algum professor - raciocinou o investigador.
   - Pode ser...
   - Voc poderia me ajudar mais, Isabel. Vamos tentar um jogo.
   Pense em todos os professores da escola. Um por um.
   - Um por um?
   - Sei que voc estava nervosa, naquela manh. Sei que viu pouco, por causa do escuro, das lgrimas e por estar sem culos. Mas o pouco que voc viu pode encaixar-se
ou no no porte fsico dos professores que voc conhece muito bem. Se voc se concentrar, poder eliminar muitos, como fez com dona Albertina e com Brucutu, por
serem, ambos, grandes demais. Assim, eu poderia ter uma lista menor de suspeitos a investigar.
   Isabel no respondeu. J tinha dito tudo. Da morte da diretora j tinha cuidado. O resto era com a polcia.
   A professora levantou-se bruscamente.
   - Ah, no! Chega de atormentar a pobrezinha. Ela j passou por muitos apertos hoje. Agora, precisa descansar.  hora de irmos embora. Deixemos as tais comparaes
e eliminaes para amanh. Trate de dormir, minha querida. Amanh, tudo parecer mais cor-de-rosa.
   O investigador concordou.
   - Est bem. Descanse sossegada, Isabel. Vou deixar um policial aqui em frente, na rua, a noite toda. Voc estar perfeitamente segura.
   Isabel fechou a porta atrs dos dois. Agora, estava sozinha, com seu ltimo dever cumprido. Colocou um disco na vitrola e estendeu-se no sof, embalada por uma
cano suave, que falava em desalento, em solido, em amores perdidos.
   Sobre a mesinha, o pacote de bombons tinha sido esquecido, com um ltimo, solitrio, bombom dentro dele.
   Isabel ainda no tinha jantado. Alis, nem tinha almoado naquele dia.
   Pegou o bombom.

   ***
   O telefone precisou tocar trs vezes para arrancar Isabel do agradvel torpor que aos poucos tomava conta de todo o seu corpo.
   - Al...
   - Isabel?
   - Cristiano...  voc...
   - Eu preciso de voc, prima.
   - Eu tambm preciso muito de voc, Cristiano...
   - Priminha, oua: Rosana deixou uma carta aqui em casa que... sei l! Nem sei como explicar. Quando eu me encontrar com ela amanh, nem sei o que falar...
   - Voc no gostou do poema?
   - No  isso.  que... Ei, como voc sabe que  um poema?
   -  fcil adivinhar, Cristiano. Rosana sempre manda poemas para voc, no ?
   - S que desta vez...  um poema estranho...
   - Estranho...
   - Eu queria que voc me explicasse o que Rosana quis dizer com isso. Eu no estou entendendo nada...
   - Ah, Cristiano...
   - Eu vou ler para voc, prima. Quem sabe, at amanh, voc me prepara uma resposta?
   - At amanh...
   - Oua, Isabel.
   Cristiano comeou a ler o poema, pausadamente, com a voz insegura. Do outro lado, estendida no sof, Isabel acompanhava cada slaba, cada verso, de olhos fechados,
sem um som, mas pronunciando tudo para dentro de si mesma.
   -...a cabea o possui, manipula, e faz dele o que quer!
   - Bonito, Cristiano...
   -... haja o que houver, do meu amor esse garoto foi o rei... O que ela quis dizer com foi o rei?
   - Continue, continue...
   -... a marca desta lgrima testemunha que eu o amei perdidamente...
   -... perdidamente...
   -... assinei com minhas lgrimas...
   -... com minhas lgrimas...
   -... mas a cabea apaixonada delirou...
   Embalada pela voz do seu amado, Isabel agarrou seus prprios versos e declamou, esquecendo-se dos segredos e das promessas:
   -... foi farsante, vigarista, mascarada, foi amante, entregando-lhe outra amada, foi covarde que amando nunca amou!
   Durante um segundo de surpresa, Cristiano emudeceu do outro lado. E foi quase com um grito que a compreenso de todos aqueles enganos veio  tona:
   - Como? Como voc conhece este poema? Acabei de encontrar debaixo da porta!
   Apesar da tontura, Isabel percebeu o que fizera. Desorientada, tentou consertar o erro:
   - Eu... eu no conheo...
   - Voc sabe de cor o poema! Voc...
   - No, no  isso, Cristiano... Rosana me mostrou. Ela...
   - Voc sabe!
   - No, Cristiano, eu no sei de nada...
   - Essa voz... Aquela tarde, ao telefone... Isabel! Era voc!
   - No, no, Cristiano, no era eu...
   - As cartas, os poemas, o tempo todo! Era voc, Isabel!
   - No, no...
   - Como eu fui ingnuo! Pedi a voc que respondesse suas prprias cartas! Todo aquele amor, toda aquela paixo, era voc!
   - No era eu, no era eu... era Rosana...
   - O tempo todo era voc! O tempo todo eu a amei atravs das cartas, pensando que eram de Rosana!
   - Eram de Rosana... de Rosana...
   - O tempo todo voc me amou, Isabel! Esse tempo todo!
   - No, no...
   - Voc me amou, Isabel!
   - No, meu amor, eu nunca te amei!
   - Isabel, minha querida! Eu sempre te amei pelas tuas cartas, pelos teus poemas. Era voc, Isabel!  voc, meu amor!
   As palavras de Cristiano ressoavam longnquas dentro da cabea de Isabel, que mergulhava cada vez mais num torpor de ausncia, mas agora leve, gostoso, cheio
de todas as palavras que ela tanto ansiara ouvir.
   - Cristiano...
   - Isabel!
   - Tarde demais... tudo to lindo... mas tarde demais...
   - Isabel! Eu no consigo ouvi-la direito...
   - Estou to tonta, Cristiano... sono... amor... to tonta... to lindo... to tarde... eu...
   - Isabel! Isabel! Fale comigo! Isabel! Responda! Do outro lado da linha, s o silncio.
   - Isabel! No me deixe! Isabel! Vou correndo para a! Me espere! Meu amor, espere por mim!


     16 - No h salvao!

   Lentamente, o fone tornou-se pesado demais para os dedos de Isabel, que se abriram, deixando rolar pelo tapete a voz desesperada de Cristiano.
   O torpor inebriante tomou conta de todo o seu corpo. Mas a mente permaneceu lcida. Encerrada dentro de si mesma pelos olhos que nada mais percebiam do exterior,
navegando docemente atravs das palavras maravilhosas que nunca esperara ouvir dos lbios de Cristiano, Isabel repassou todos os acontecimentos daqueles dias de
loucura.
   "Tarde demais... Cristiano, meu amor... voc est vindo para c... tarde demais. Eu esperei tanto... Tudo to lindo e to tarde... Cristiano, meus braos estiveram
 sua espera todo esse tempo, e agora no so mais capazes de abra-lo... Tarde demais..."
   Como se viessem do outro lado do planeta, batidas violentas na porta penetraram os ouvidos de Isabel.
   "Tarde demais... Cristiano... Como voc vai me encontrar? Como a Bela Adormecida? Cem anos  espera do beijo do prncipe? Voc beijaria o meu cadver daqui a
cem anos, Cristiano? De que jeito voc vai me encontrar? Como a dona Albertina? Feia, grotesca, obesa, esbugalhada, arregaada, com um envelope cheio de veneno ao
lado? Ou como a Branca de Neve, numa urna de cristal, envenenada pela ma?''
   Ela teria deixado a porta destrancada? Ou algum invasor a arrombara? Sentia algum a seu lado, algum que a tocava. Falava com ela, talvez? Cristiano! Lbios
quentes colaram-se delicadamente aos seus, como a soprar-lhe a vida que fugia, e uma carcia leve, metlica, arrastou-se por seu pescoo. A correntinha! Cristiano...
O primeiro e o ltimo beijo, sempre com Isabel cada, largada como um fardo, sobre a grama ou sobre o sof... como um cadver...
   "Cristiano... tarde demais... meu prncipe! Tarde demais... A ma da bruxa estava envenenada... ma envenenada... linamarina na ma... linamarina no bombom...
bombom envenenado...  isso! Por que no pensei nisso antes? O veneno estava no bombom! No bombom! No havia nenhum envelope plstico ao lado da mo da diretora
quando eu encontrei o cadver. No havia, eu me lembro! Eu vi aquela mo gorda, foi a primeira coisa que vi. No havia envelope nenhum! Mas havia o papel de bombom,
em cima da mesa... Depois, o papel de bombom desapareceu e surgiu um envelope com veneno ao lado do corpo. Quem ps? Quem tirou? Brucutu! No! Brucutu, no. Fernando
mesmo disse que Brucutu ficou agarrado no brao dele, na entrada da sala, o tempo todo. Brucutu s nos arrastou para a diretoria para que houvesse duas testemunhas
inocentes, insuspeitas, na hora da descoberta do cadver.  claro! Por que ele estava com a chave mestra? Coincidncia? Ele era apenas o cmplice, encarregado dos
trabalhos de apoio. Ento... o ator principal era... era a professora Olga! Olga! Ah, por que eu no vi isso antes? Estava tudo na minha frente. No vi porque no
mais nada na minha cabea, alm dele. DELE! De voc, meu amor! Voc est a? Est me ouvindo? Ai, eu no consigo falar! Mas algum tem de me ouvir. Era Olga. No
laboratrio, a figura de avental. Era Olga! Meu amor, tente me ouvir, eu no tenho foras para falar... Tarde demais... Educao por induo subliminar... Educao
forada! Usar os prprios anseios de algum para lev-lo a fazer at o que no quer.  isso. O bombom envenenado! Foi s deixar um bombom envenenado em cima da mesa
onde dona Albertina passaria a noite trabalhando. Fechada naquela sala, sozinha, com sua necessidade de emagrecer, com sua fome que aumentava a cada minuto, e com
um bombom... Qual dos dois lados de sua vontade venceria? A deciso de emagrecer? Ou a gulodice de toda a sua vida? A professora Olga... Olga sabia qual o lado vencedor.
O crime perfeito! O crime a portas fechadas! Depois, foi s sumir com o papel de bombom e deixar cair o envelope com veneno ao lado do corpo. Tudo perfeito... na
minha frente! Algum! Procure me entender! Eu sei! Foi Olga!"
   Como em um disco fora de rotao, Isabel conseguia distinguir vozes e movimentos agitados a sua volta, mos que a seguravam, agulhas que a espetavam...
   - Tragam a maa!
   - Segurem com cuidado...
   -  melhor apertar a correia...
   - Salvem-na, por favor! Ela  tudo para mim!
   "Foi Olga! Esto ouvindo? Ai, eu no consigo falar... Foi Olga! O bombom envenenado, a linamarina, foi Olga! Foi..."
   O entorpecimento tomara conta de todo o seu corpo e as peas todas daquele quebra-cabea imenso espalhavam-se desordenadamente por entre as clulas de seu crebro.
Apesar da tontura, tudo agora parecia fazer sentido, parecia encaixar-se. Mas, subitamente, a forma de montar o quebra-cabea mudou, e uma nova conscincia, terrvel,
macabra, surgiu como um pesadelo que antecede a morte:
   "No! No  nada disso! No! No foi nada disso... As impresses digitais! Quem teve a chance de colocar as impresses digitais de dona Albertina no envelope
de veneno? Foi ela! S ela! Meu Deus! O bombom envenenado! No  um s. So dois! O bombom! O bombom deixado sobre a mesinha... um bombom s, preparado para eu comer!
Preparado com linamarina! Um bombom para a menina gorda, que no havia almoado nem jantado... Ela disse que comia bom-bons porque estava deixando de fumar... Comeu
os bombons normais e deixou um s no saquinho. Envenenado! Com linamarina! Com cianureto!"
   Sentiu-se sacudir, carregada. Quase nada mais percebia do exterior. Um toldo negro cada vez mais a envolvia corpo uma mortalha.
   Bem perto dela, algum falava nervoso e baixinho, mas as palavras perdiam-se no precipcio da inconscincia que chegava.
   -... no sei... intoxicao... envenenamento... se foi cianureto... no h salvao...
   A mente de Isabel desligou-se do mundo.

   ***
   - Calma, rapaz, estamos fazendo o possvel...
   - Faa o impossvel, doutor! Salve Isabel!
   - Me disseram que essa menina  um gnio...
   - No me importa o gnio, doutor. Eu quero essa menina! Eu quero essa menina viva!

   ***
   Sou professora da menina, doutor. Qual o diagnstico? Ainda no sabemos qual a substncia txica... E qual o prognstico? Ela viver? Confie em ns, professora
Olga...

   ***
   - Doutor, esse rapaz se recusa a sair do hospital. Disse que vai ficar aqui a noite toda. Na sala de espera. Acordado...
   - Deixe-o ficar, enfermeira. Deixe-o ficar...
   - Mas o regulamento...
   - Ento faa de conta que no viu. Eu tambm j fui jovem, enfermeira. Eu tambm j me apaixonei. Como esse rapaz. Sei o que ele est sentindo...

   ***
   "Eu estou no laboratrio? Est escuro, como no laboratrio... eu estou sem culos... como no laboratrio... Cristiano vir? Vai dizer que ama Rosana? No! Ele
disse que ama a mim! Isabel! Eu no quero morrer... No me deixem morrer... Agora no! Cristiano, me ajude! Voc disse que me ama, disse que ama o que eu escrevi...
Ento venha me buscar... Me tire do laboratrio, me tire do escuro... Eu j morri, Cristiano? J estou na urna de cristal? Onde est o meu beijo, meu prncipe? O
beijo da grama, o beijo do sof. o beijo da vida... Me devolva a vida, meu amor, para que eu possa d-la de volta, inteirinha, a voc..."
   O horrio de visitas no hospital j havia terminado, mas a mulher conseguiu esgueirar-se sem ser percebida e entrou na sala dos mdicos.
   Havia apenas um deles, dormindo como um santo e roncando como um porco, perfeitamente preparado para o planto da noite.
   A mulher apanhou um avental de mdico, vestiu-o, retirou cuidadosamente o estetoscpio pendurado no mdico adormecido, colocou-o no prprio pescoo e saiu sem
um rudo.

   ***
   "Est frio... eu estou no laboratrio? Cristiano no vir... eu no vou chorar... eu no posso chorar... o vulto de branco vem a... vai mexer na linamarina...
quer me dar o bombom envenenado... eu preciso saber quem ... preciso enxergar atravs das lgrimas... a lgrima pingou sobre a carta para Cristiano... marcou a
carta... Cristiano vai descobrir que sou eu... No, Cristiano, no diga que ama Rosana... no me faa chorar, seno eu no vou reconhecer o vulto de branco... Est
frio no laboratrio... a aranha est com frio... Onde est a aranha? Onde est a cobra? Esto presas! Na urna de cristal! Junto com o cadver de Isabel! Esto mortas,
com Isabel! Socorro, Cristiano..."

   ***
   - Onde est a ficha da paciente do 412?
   - Est aqui, doutora...
   - Quero ver.
   A encarregada do andar entregou a prancheta  mulher. Estava tudo anotado. A substncia txica j havia sido descoberta. Ela leu o que precisava e jogou a prancheta
sobre o balco.
   Pegou o elevador at o subsolo, onde ficava a farmcia do hospital.
   - Boa noite, doutora... - cumprimentou o sonolento atendente.
   A.mulher perguntou de um medicamento, um nome inventado na hora, algo bem complicado.
   - Hum... no sei, doutora. Posso verificar na lista.
   - Pois verifique.
   - Deixe ver... no, no temos esse medicamento em estoque, doutora.
   - Veja na administrao se h algum pedido de compra. Preciso do medicamento at amanh.
   - Um instante, doutora. Vou telefonar para a administrao. Talvez o plantonista possa informar alguma coisa.
   Enquanto o atendente discava, a mulher, s suas costas, percorreu as prateleiras. Foi rpido encontrar o que precisava. Quando o homem desligou, ela j pusera
um pequeno frasco e uma seringa de injeo no bolso do avental.
   - Desculpe, doutora, mas no h pedido de compra para esse medicamento.
   - Droga de hospital! Est bem, eu me viro de outro jeito. Obrigada, assim mesmo.
   - s ordens, doutora.

   ***
   "Cristiano me ama... me ama! No quero morrer... no quero morrer... no sou dona Albertina... tenho s quatorze anos... no sou obesa... tanto assim eu no sou...
Voc me acha gorda, Cristiano? Voc me acha feia? Esse frio... Meus ps esto frios... Estou na beira do lago? Do lago do sonho? Estou nua? Estou nua... O gigante!
Estou vendo! O gigante voltou! Eu no tive juzo... Ele voltou para se vingar! Estou vendo!  Brucutu!"

   ***
   Na porta do quarto 412 havia uma tabuletinha onde estava escrito VISITAS PROIBIDAS POR ORDEM MDICA. Mas, quela hora da noite, ningum ficava de planto pelos
corredores para fazer cumprir as ordens das tabuletinhas. Assim, a mulher de avental deslizou sem problemas pelo corredor e abriu a porta silenciosamente.

   ***
   "Brucutu? No, no  Brucutu... Onde estou? Aqui no  o laboratrio da escola... Onde est a aranha? Onde est a cobra? Onde est o vulto de branco? O vulto
de branco! Voc!"
   - Boa noite, Isabel. Como ? Est melhorzinha?
   Apesar da escurido quase total, Isabel reconheceu o vulto da professora, recortado contra o teto do quarto.
   - Oh, vejo que voc ainda est fraca! Mas isso vai passar. Sabe? Eu fiquei preocupada com a histria do bombom. ... voc me deixou preocupada. Ningum sobrevive
 linamarina. Ningum sobrevive ao cianureto. Mas voc no comeu o bombom, no ?  pena... Voc poderia ter evitado tanta preocupao, tanto sofrimento...
   Isabel tentou gritar, e a lngua se enrolou, os msculos no responderam. Mas ela ouvia tudo, e enxergava o suficiente para aumentar o prprio terror.
   - Voc tem de admitir que foi uma grande idia, no foi? Hein? Levar a polcia junto, na hora de cometer um crime! Hein? Oferecer o bombom envenenado nas barbas
da polcia! Um lance de gnio, voc tem de admitir. Mas voc no comeu o bombom...
   Naquele momento, quando Isabel havia recuperado todas as razes para viver, naquele momento em que ela havia finalmente conquistado o amor de Cristiano, a morte
estava ali, de avental branco, falando suavemente, com ternura at.
   - Voc no comeu o bombom. E confundiu a todos, a mim e aos mdicos, porque tomou alguma outra coisa. Que falta de juzo! Sabe que foi difcil trat-la at se
saber com certeza o que voc tinha tomado? Por que voc tomou o calmante da mame? Voc queria morrer? Por qu, queridinha? Se queria morrer, devia ter comido o
meu bombom. Eu o preparei com tanto carinho... Ou devia ter tomado mais do remdio da mame. Pelo jeito, voc tomou to pouco... S serviu mesmo para deixar voc
tontinha desse jeito. E para deixar todos ns preocupados. Menina m!
   Isabel tentava conseguir foras para alguma reao. Se conseguisse um grito, um s, no silncio noturno daquele hospital, algum viria socorr-la. Mas todo o
seu corpo permanecia paralisado, como um quase-morto, capaz apenas de ouvir... e de sentir medo.
   - Voc est me ouvindo, queridinha?  claro que est! Eu vejo pelo seu olhar que voc est me ouvindo. Est com medo? Medo de quem? Do Brucutu? No precisa mais
ter medo do Brucutu. Ele est morto. Meu ajudante, meu nico amigo de verdade naquela escola, e voc me obrigou a mat-lo. ... foi voc, no sabia? Pobre Brucutu!
Foi ouvir seus mexericos com Fernando e me procurou, todo alvoroado. Eu o aconselhei a ficar quieto, mas o pobrezinho resolveu ameaar voc. A, quando voc falou
da ameaa para mim e para o investigador, voc me forou a mat-lo. Ele acabaria facilmente preso e ia complicar ainda mais as coisas. Brucutu raciocinava pouco,
mas sabia demais. Foi uma pena. Uma pena mesmo...
   Calmamente, a professora rasgou a embalagem da seringa de injeo. Espetou a agulha na borrachinha do frasco e fez a seringa aspirar o lquido.
   - Os mdicos j descobriram que tipo de calmante voc tomou. Voc est recebendo o tratamento certo. Que timo, no? Eu tambm acabei de saber o que voc tomou.
Foi isto aqui. Agora, tudo o que voc precisa  da dose certa. Eu poderia injetar o remedinho nesse tubo que est levando soro a, para as suas veias. Mas esse 
um risco que voc no quer que eu corra, no ? Algum podia ter a infeliz idia de analisar o tubo, e ia acabar encontrando traos do nosso remedinho, no ? Tambm
no ser bom deixar marcas de
   injeo na sua pele. Por isso, vamos dar uma espetadinha no seu couro cabeludo. Mas no se preocupe. No vai doer nada. E quem vai descobrir uma espetadinha no
couro cabeludo? Tudo certo. Como este  o remedinho que voc tomou, amanh todos pensaro que o tratamento no foi aplicado a tempo, e tudo sair bem. Chega de preocupaes,
voc no acha?
   Sentou-se  beira da cama, sorrindo como uma enfermeira dedicada. Na mo direita, trazia a seringa com a agulha voltada para cima. Com a esquerda, comeou a acariciar
docemente os cabelos de Isabel.
   - Queridinha... Voc ser a terceira. Mas no vai me querer mal, vai? Acho que voc tambm quer acabar logo com todos esses problemas, no ? A primeira foi dona
Albertina. Tudo to bem feito, tudo quase perfeito, se no fosse certa garotinha que gosta de causar confuses...
   As carcias aumentavam de intensidade, feitas com as pontas dos dedos, como se a professora procurasse o ponto certo para a agulha.
   - Dona Albertina... Eu tinha de mat-la. A grande diretora, a grande educadora, querida por todos! E eu? Sempre  sombra dela. A ela, todos admirando. De mim,
todos rindo. De mim, todos sempre riram, desde o tempo em que fui professora de qumica. Voc sabia que eu fui professora de qumica? A melhor de todas, mas os alunos
riam de mim. Por causa dela. Agora, ningum mais vai rir, porque ela est morta!
   A mo parou de acariciar a cabea de Isabel e afastou-lhe os cabelos, descobrindo o local escolhido.
   - Ora, no  que eu esqueci o algodo com lcool? Mas no fique assustada. Eu sei aplicar injeo muito bem. No h perigo de infeccionar. Morra, queridinha.
Assim... quieta.
   A espetada doeu pouco e, em um segundo, o torpor que Isabel conhecia to bem voltou a circular em cada uma de suas veias. Aos poucos, o quarto ficou ainda mais
escuro.
   - Assim... menina boazinha...
   A voz e o comportamento daquela mulher davam quela cena macabra o clima respeitoso de uma missa negra.
   De repente, como um sacrilgio, um rudo invadiu o quarto.
   J quase mergulhada no esquecimento, Isabel viu o rosto da professora, ainda sorrindo. Mas viu sangue. Sangue que brotava da cabea da mulher, escorria por seu
rosto e vinha empapar a camisola de Isabel.
   E Isabel sentiu cair pesadamente sobre seu corpo o corpo inanimado da professora Virgnia, a vice-diretora da escola.

      III - Paixo que ressuscita

     17 - Eu sei que ele me ama...

   Isabel estava muito fraca por fora, mas tinha a primavera por dentro, como todos os seus pssaros e borboletas azuis. A batalha dos mdicos tinha sido terrvel.
Inconsciente, ela no percebera aquela batalha. Ela s vivera aquela batalha. E, por fim, sobrevivera a ela.
   Sobrevivera como se tivesse acabado de nascer, com o humor e a alegria de algum que, a custo, foi arrancado da morte. De algum que,  frente, s v felicidade
sem barreiras.
   O pai veio e, dessa vez, trouxe Helena (Ou seria Lcia? Ou Cristina?). A me, agora que Isabel estava fora de perigo, tinha deixado o hospital para buscar algumas
roupas, sempre com a certeza de que a filha passara por tudo aquilo s para agravar-lhe a enxaqueca.
   Mesmo fraca e debilitada, em seu primeiro dia de plena conscincia, Isabel portou-se mais como visita do que como doente, sorrindo sempre, brincando com voz alegre
e transmitindo nimo a quem se aproximasse de sua cama.
   Duas batidinhas e entrou uma atendente, trazendo mais uma dose annima de comprimidos.
   - Bom dia, querida. Que bom ver a sua carinha animada desse jeito!
   - Bom dia! Isso no  animao, isso  vida! Viver  lindo. Amar  lindo. Ser amada  mais lindo ainda!
   - Nossa! Como est a nossa ressuscitadinha! Se todos os nossos doentes fossem como voc, este hospital seria uma festa...
   - Ento vamos fazer uma festa. Precisamos animar este hospital!
   - Voc precisa  descansar sossegadinha para sair logo daqui. Todas as festas esto esperando por voc l fora.
   - Eu dei muito trabalho, ?
   - Se deu! Quando voc chegou aqui. disseram que era envenenamento por cianureto. Naturalmente, isso no era possvel, porque o cianureto mata em poucos segundos.
Tinha sido um calmante, no ? Mas os mdicos demoraram a descobrir o que era.
   - Puxa, eu s tomei dois comprimidos!
   - , voc teve uma forte reao. s vezes acontece. Eu nunca confio nesses remdios. Eu trabalho aqui mas, quando estou nervosa, s tomo ch de erva-cidreira.
   - Vou me lembrar disso, da prxima vez... - sorriu Isabel.
   - O problema mesmo foi aquela professora louca. Ela injetou o mesmo calmante em voc. S que uma dose capaz de matar um cavalo! Se no fosse aquele rapaz...
   - Cristiano...
   -  esse o nome dele? Voc tem sorte de ser to amada por um garoto como ele. Ele arrebentou um frasco de sangue na cabea da tal professora Virgnia, bem a tempo
de...
   Era a ltima recordao de Isabel: o sangue esguichando na cabea da vice-diretora, escorrendo por todos os lados, empapando sua camisola.
   - Deu at na televiso! Agora, aquela mulher maluca est toda costurada, l na enfermaria da priso. Se no fosse o seu garoto...
   - Cristiano... ele me salvou a vida!
   - Duas vezes! Foi ele quem encontrou voc em casa, cada no sof, e chamou a ambulncia. Depois, ficou o tempo todo por aqui, pressionando os mdicos, perguntando
por voc a toda hora, chorando...
   - Chorando!
   - S arredou p do hospital quando soube que voc estava fora de perigo. Acho que foi em casa se arrumar para que voc o veja bem bonitinho...
   - Cristiano! Chorando por mim...
   A atendente ajeitou os travesseiros atrs de Isabel e preparou-se para sair.
   - Voc  uma garota de sorte, mas vai ter um probleminha para resolver.
   - Um probleminha? Qual?
   - H outro garoto, no ? Apareceu aqui vrias vezes, tambm desesperado, dizendo a todo mundo que ama voc, que no pode viver sem voc...
   Uma sombra passou pelos olhos de Isabel.
   - Esse  Fernando. Um rapaz maravilhoso. O melhor amigo que uma garota como eu poderia ter. Ah, se no fosse Cristiano...
   - Ento voc j escolheu, ? Um dos dois vai sofrer.
   A alegria da sobrevivente diminuiu um pouco. Por nada deste mundo ela gostaria que Fernando sofresse. Mas ela estava amarrada para sempre pelo beijo apaixonado
no jardim, pelo beijo da vida no sof, pelo roar da correntinha...
   - Ah, Fernando, voc vai ter de me compreender...
   - Ah, Fernando, que rosas lindas! Obrigada, voc  mesmo um amor!

   ***
   Isabel teria preferido que a primeira visita no fosse de Fernando. Mas agora o rapaz estava ali, cheio de rosas e esperana, e ela iria faz-lo sofrer. Rosana
tambm sofreria, mas o que fazer?
   " melhor um fim trgico do que uma tragdia sem fim", pensou ela pela segunda vez..
   - Senhorita Iluso... a professora Virgnia enganou a todos ns, no foi?
   - Quase que eu pago com a vida por esse engano... E o prximo seria voc. Ela sabia que eu tinha falado das minhas suspeitas com voc.
   - Ela no pararia mais. Pobre mulher louca! A polcia j conseguiu levantar todos os dados para encerrar o caso. Falei com o investigador. Virgnia era uma mulher
brilhante, mas a loucura estava tomando conta dela. Foi por isso que dona Albertina morreu. As duas eram grandes amigas, e a diretora estava percebendo os sinais
de desequilbrio mental que a professora Virgnia comeava a apresentar. Primeiro, para proteg-la, encostou-a no cargo de vice-diretora, sem nenhuma funo prtica.
Por fim, parece que ela estava cuidando da internao da amiga em uma clnica psiquitrica. Foi a que os delrios de perseguio da professora Virgnia transformaram
a amizade por dona Albertina em dio...
   - Que horror, Fernando!
   - O estranho  que ela no perdeu a genialidade, apesar da loucura. Muita coisa ela falou  polcia, depois de presa. Ela imaginou que precisava de um cmplice,
se bem que poderia ter feito sozinha tudo o que fez. Brucutu s serviu para caar voc e eu no ptio, de modo que nossa presena inocente na hora da descoberta do
cadver fosse uma garantia de que dona Albertina morrera sozinha e fechada na diretoria. E para abrir a porta com a chave mestra,  claro. Por coincidncia, a professora
Olga apareceu tambm e Virgnia conseguiu uma testemunha a mais.
   - Pobre Olga! E eu que cheguei a pensar.
   - Mas deixe eu lhe contar o que fez Virgnia para envolver Brucutu. Ele estava com problemas de dinheiro e ela o convenceu a roubar certa quantia da gaveta de
dona Albertina. Depois, disse a^ coitado que a diretora descobrira o roubo e que a nica forma de livr-lo da priso seria matando-a. S que dona Albertina jamais
descobriria esse roubo, porque o roubo praticamente no aconteceu: a prpria Virgnia tinha posto o dinheiro na gaveta para Brucutu roubar. O dinheiro era dela mesma!
   - Genial! Com isso, Brucutu ficou nas mos dela como um fantoche!
   - S que ele se apavorou quando ouviu nossa conversa na pracinha e resolveu ameaar voc. A, Virgnia ficou com medo que ele fosse preso e acabasse falando demais
e o envenenou. Foi encontrado morto no quartinho onde morava, Com um papel de bombom ao lado...
   - Coitado! Ele me assustava tanto, mas era apenas uma pobre vtima, como dona Albertina...
   - Ou como voc. At o investigador ficou espantado com a ousadia da professora Virgnia. Ela o procurou e o convenceu a irem juntos  sua casa, pois devia haver
alguma coisa que voc sabia e no dissera no interrogatrio. Uma idia brilhante: quando voc aparecesse morta, quem iria desconfiar que o veneno estava em um bombom
oferecido a voc na frente de um policial?
   - Eu no esperava aqueles dois. Eu esperava que Olga chegasse...
   - A professora Olga chegou um pouco depois, quase junto com a ambulncia que foi buscar voc.
   - Eu nem desconfiei quando Virgnia deixou o bombom sobre a mesa. Ela comeu todos os outros do saquinho... Quem havia de desconfiar que justo aquele ltimo estivesse
envenenado?
   - Virgnia foi mesmo brilhante, Isabel. O plano para matar dona Albertina era perfeito. Ela usou o regime da nossa pobre diretora. Que pessoa obesa no comeria
s escondidas um bombonzinho deixado sobre a mesa? Depois que ns descobrimos o corpo, ela ficou fazendo aquele papel de histrica at entrar sozinha na diretoria,
pegar o papel de bombom e deixar o envelope com veneno ao lado do corpo, depois de pressionar os dedos de dona Albertina contra o envelope para marcar as impresses
digitais. Sua nica falha foi deixar o frasco do laboratrio limpo de impresses, mas este era um risco a enfrentar, pois no seria possvel trazer o frasco at
 diretoria, pressionar os dedos da diretora contra ele e depois coloc-lo de volta no laboratrio.
   - Isso tudo eu descobri, Fernando. Um pouco tarde, mas acabei descobrindo. No comeo, pensei que a culpada fosse Olga, por causa das teorias dela sobre educao
por induo subliminar. Mas depois eu percebi que Olga poderia ter apanhado o papel de bombom e deixado cair o envelope com veneno, mas no teria a oportunidade
de pressionar os dedos da diretora contra o envelope, na minha frente. A nica que ficou a ss com a morta e teve essa oportunidade foi a professora Virgnia. Eu
pensei nisso tudo enquanto estava desmaiando naquele sof. Tentei desesperadamente falar, contar tudo, mas a voz no saa!
   - Como no saa? Voc falou pelos cotovelos. No calou a boca um s minuto. Voc deu todos, os detalhes necessrios  compreenso exata do crime. O investigador
ficou admiradssimo com a sua capacidade de deduo. Disse que voc  um gnio. Graas a voc, a polcia j estava atrs da professora Virgnia antes que a ambulncia
chegasse ao hospital. Voc falou do bombom, do regime, de tudo! Eu ouvi tudinho!
   - Como? Voc tambm estava l?
   -  claro que eu estava, meu amor. Recebi seu recado na livraria e fui correndo para a sua casa. Alis, a professora Olga tambm estava ao seu lado enquanto voc
a acusava de assassina...
   - Ai, que besteira que eu fiz!
   - Ela estava cuidando de voc. O policial que guardava a sua casa quase chegou a prend-la. Mas a voc virou o jogo e comeou a acusar Virgnia.
   - Mas Cristiano...
   - Cristiano? - cortou Fernando com um tom de voz bem mais seco. - Sim, ele tambm estava l.
   Levantou-se e ficou olhando pela janela do quarto, que dava para o jardim do hospital.
   Isabel decidiu aproveitar a deixa e dizer o que tinha de ser dito, do modo mais rpido possvel.
   - Sabe, Fernando? Voc  um grande amigo e eu quero que voc saiba de uma coisa maravilhosa...
   - No sei se quero saber dessa coisa maravilhosa, Isabel...
   - Eu quero que voc saiba, Fernando. Eu estou apaixonada por Cristiano e agora eu sei que ele me ama...
   - Eu sou a pessoa menos indicada para voc dizer que ama outro, Isabel. Porque voc sabe que eu te amo...
   - Oh, Fernando, compreenda... O rapaz ainda olhava para fora.
   - Eu sei, Isabel. Voc falou o nome dele o tempo todo, durante o seu delrio. Em sua casa e aqui, no hospital. Mas, se voc quer dizer que ama Cristiano, diga
a ele mesmo. Ele vem a, acabou de atravessar o jardim.
   - Fernando, eu...
   - No se preocupe comigo, minha querida. Acho que chegou a hora de eu parar de insistir. Fique boa logo e seja muito feliz, meu amor...
   Caminhou at  porta e voltou-se para Isabel, sorrindo, como se as palavras da menina no o tivessem ferido como punhais.
   - Uma ltima pergunta, Isabel: por que voc no comeu o bombom que a professora Virgnia deixou sobre a mesinha?
   - Bombons engordam, Fernando. E eu estou de regime!
   - Quer dizer... quer dizer que voc no queria morrer?
   -  claro que no! Pensa que eu sou idiota?


     18 - Isso ningum vai me tirar!

   Ali,  sua frente, estava o garoto da sua vida. O garoto lindo como um deus, o garoto que ela havia ajudado a conquistar para a sua melhor amiga. O garoto por
quem ela sofrer mais do que imaginava poder agentar. O garoto por quem derramara mais lgrimas do que pensava ser capaz de produzir.
   Todo o sofrimento acabara, finalmente. Agora ele estava ali, amando-a como ela o havia amado em segredo, durante tanto tempo.
   Havia, porm, alguma coisa que parecia no se% encaixar perfeitamente. Se Isabel fechasse os olhos e deixasse vir  mente as recordaes daquele beijo no jardim,
quando se sentiu mulher pela primeira vez, e daquele beijo no sof, quando sentiu quase morrer de amor, a paixo explodia dentro dela, como ela mesma havia escrito:
um, dois, trs, sangue! E, dentro do peito, seu coraozinho disparava como a corrida de um coelho em busca da cenoura.
   De olhos abertos, o sonho no parecia o mesmo. Cristiano estava ali, lindo - ah, como ele era lindo! - amando-a, querendo-a... O que mais ela poderia desejar?
   Cristiano ajoelhou-se no cho, ao lado da cama, e tomou a mo de Isabel.
   - Meu amor, minha prima querida! Voc sobreviveu para mim!
   - Cristiano!
   Por que ela se sentia assim? Por que no conseguia esquecer a expresso de derrota no rosto de Fernando? Remorso, talvez. Ela jamais teria querido magoar aquele
amigo. Mas o que fazer?
   - Ah, Isabel, eu sempre te amei e no sabia disso... Eu te amo e quase te perdi. Mas agora tudo vai ser diferente, no , meu amor? Agora, s teremos felicidade
pela frente...
   - Felicidade sim, Cristiano...
   - Eu no sei dizer as coisas certas, minha querida. Eu nunca soube. Mas eu sinto como qualquer outra pessoa. E voc... voc consegue dizer tudo direitinho como
eu sinto! Eu fui um tolo. Nas cartas que voc escreveu para Rosana estava eu, inteirinho l. Nas cartas que voc escreveu para mim, estava voc, inteirinha, me amando...
E eu no via!
   - Cristiano, eu...
   - Voc vai ter de perdoar minha cegueira, minhas tolices... Eu nem sei como dizer agora quanto eu te amo. Acho que s digo o que sinto realmente quando voc me
dita as palavras... Quando eu digo o que voc escreve,  como se eu dissesse realmente o que sinto!
   Isabel olhou aquele rapaz bonito bem nos olhos. E sorriu.
   - Voc quer que eu lhe dite, neste momento, uma declarao de amor para mim mesma?
   - Como, Isabel?
   - Hum... deixe ver... poderia ser uma declarao arrebatada, como: meu amor por voc, Isabel,  capaz de arrancar a lua de sua rbita! Ou submissa: eu me entrego
a voc - sou escravo do seu amor...
   - Ora, Isabel...
   - Pode tambm ser possessiva: com meus lbios, farei uma jaula de beijos para te aprisionar! Ou pode ser uma declarao ecolgica: meu amor  um lago - venha
banhar-se nele!
   - Isabel, voc est brincando comigo?
   - Pode ser exagerada: beberei o mar, se voc for o sal! Ou pretensiosa: minha paixo destri a dor, constri a esperana!
   - Chega, Isabel!
   - Chega sim, Cristiano. Chega de sofrer. Voc pertence a Rosana. Amaram-se quando se viram e depois se deixaram perder em minhas mos. Vocs dois viraram meus
personagens. Chegou a hora de vocs se libertarem de mim e eu me libertar de vocs. Por acaso voc deve se apaixonar pelo compositor se a msica dele o ajuda a conquistar
a namorada? Ou pelo pr-do-sol, quando as cores criam o clima certo para que ela diga sim?
   - Isabel, voc no compreende...
   -  verdade, Cristiano, eu custei a compreender. Compreender que eu sou uma artista. Uma artista que criou os dois lados de uma paixo que s existia na minha
cabea. Mas o amor de voc e Rosana  real. Vocs se amam, apesar e no por causa das minhas palavras. Se no sabem se amar sem elas, amem-se calados!
   - O que voc est dizendo, Isabel?
   - Ou faam como todo mundo e busque inspirao em qualquer poeta, em qualquer msico, em qualquer pr-do-sol, em qualquer lua. De preferncia, procurem um poeta
que no tenha sido beijado por voc em nenhum jardim e de quem voc no tenha salvo a vida em nenhum sof!
   - Mas eu no...
   - Deixe-me, Cristiano. V procurar Rosana. Eu sei que h uma grande verdade no meu amor por voc. Uma verdade que no fui eu que escrevi. Uma verdade que foi
escrita sem palavras, com um beijo, em um jardim de sonhos. Sei que jamais esquecerei aquele beijo, mas tenho de tentar. Devo minha vida a voc. Duas vezes. Devo
minha paixo a voc. Para sempre. Mas eu no agento mais. Tenho de esquecer o beijo. Tenho de esquecer voc. Ou passar a vida tentando.
   Cristiano no entendia nada. Levantou-se num repente e segurou a menina pelos ombros.
   - Esquea tudo isso, Isabel. Esquea as cartas, esquea tudo! O que importa  que ns dois nos amamos... Vamos comear tudo de novo, meu amor...
   Debruou-se sobre ela, com os lbios vidos por beij-la. Isabel desviou o rosto e, com as mos, tentou afastar o rapaz.
   - No, Cristiano, por favor... eu no quero mais sofrer.
   As mos de Isabel espalmaram-se no peito de Cristiano. A camisa afastou-se, revelando o peito nu.
   - Cristiano! A correntinha! Onde est a correntinha?
   - Que correntinha, meu amor? Eu no uso correntinha... Isabel livrou-se do abrao e, a custo, levantou-se da cama.
   - Voc... voc no usa correntinha!
   - Por que deveria usar? De que est falando, Isabel? Eu no entendo...
   - Pois agora eu entendo!
   Com o corpo mal coberto pela minscula camisola do hospital, tonta pelos restos do veneno que ainda circulava em suas veias, Isabel estava com o rosto em fogo.
   - Eu vi tudo errado! Eu criei a fbula falsa! O beijo no jardim, no era voc!
   - No jardim? Que jardim?
   - O beijo no sof, no era voc! O frasco de sangue, arrebentando-se neste quarto e me salvando da morte, no era voc! A correntinha, no era voc!
   - Isabel, voc enlouqueceu?
   Como louca, Isabel ria. s gargalhadas, cambaleando.
   - Como eu fui cega! S enxerguei a fbula que eu mesma estava criando! Eu no preciso esquecer aquele beijo, Cristiano. Eu disse que ningum haveria de me tirar
aquele beijo, e isso ningum vai me tirar. Ele  meu!
   Cambaleou tonta at  janela. Uma chuva mida enregelava o jardim do hospital. E ela enxergou quem queria enxergar.
   - Me espere, meu amor...
   Arrastou-se como bbada para a porta do quarto.
   - No, Isabel,! Voc est muito fraca. No pode sair da cama!
   - Volte para Rosana, Cristiano. Ela o ama. Voc a ama. Agora eu tenho de consertar todos os enganos que eu mesma criei. Tenho de encontrar a pessoa que me amou
como eu sou, sem fbulas, sem versos, sem cartas, com todos os meus problemas e as minhas loucuras. Adeus, primo querido. Volte para Rosana!
   Enfraquecida, seminua, abriu a porta e correu pelos corredores do hospital. Suas pernas mal obedeciam e o frio do pavimento penetrava-lhe as solas dos ps.
   - Meu amor, espere por mim!
   Livrou-se de um atendente que tentou det-la e chegou vermelha, ardendo em febre,  porta do hospital.
   No meio do jardim, um rapaz levantou o olhar para ela.
   - Isabel!
   - Fernando!
   Tropeando, escorregando, Isabel correu pelas alamedas molhadas do jardim em direo aos braos que a aguardavam.
   A chuva colava sua camisolinha ao corpo quando Fernando a abraou.
   - Fernando, meu querido! Eu preciso dizer...
   - Quietinha, meu amor! Voc j falou demais...
   E os lbios de Fernando procuraram a boquinha trmula de Isabel, calando, com um beijo apaixonado, tudo aquilo que no mais precisava ser dito...
   A chuva apertou, encharcando os dois, como se quisesse dissolv-los em um s corpo, num abrao eterno...

     AUTOR E OBRA
   Cyrano de Bergerac! A histria romntica do espadachim feio e narigudo que escreve cartas de amor para sua amada Roxane em nome do seu rival, o lindo Cristiano,
me impressiona desde a adolescncia, em Santos, onde nasci em 1942.
   Em So Paulo, desde 1961, durante meus anos como ator de teatro, eu pensava na montagem da pea de Edmond Rostand, mas sentia que a linguagem rebuscada do autor
impediria que toda a pujana do enredo fosse compreendida pelas platias brasileiras. Desde ento, a idia de adaptar Cyrano de Bergerac me acompanhou.
   Tornei-me um autor de histrias para jovens, como A Droga da Obedincia, De Piolho a Garrote e Ameaa de 7 cabeas, e a correspondncia com meus leitores e leitoras
acabou por me convencer de que havia chegado a hora de escrever uma histria de amor.
   Decidi ento que esta histria de amor seria a adaptao moderna e brasileira de Cyrano de Bergerac. E o meu Cyrano transformou-se em Isabel, uma menina de 14
anos, criativa, inteligente, maravilhosa, mas cheia de problemas. A personagem cresceu, caminhou sozinha pelo papel, como se no precisasse de meus dedos a surrar
as teclas da mquina.
   Mas, enquanto eu escrevia A marca de uma lgrima, uma srie de dvidas no me saa da cabea:
   - O que estou fazendo? Pode uma menina de 14 anos apaixonar-se de verdade? Pode qualquer jovem de 13, 14 ou 15 anos amar verdadeiramente algum? Como  a cabea
de um jovem dessa idade? Como so os sentimentos desses meus leitores? Serei eu capaz de penetrar e entender o corao dessa juventude?
   A est A marca de uma lgrima. Nela, procurei pensar e compor poemas como se eu prprio fosse Isabel e estivesse apaixonado aos 14 anos. S no consegui respostas
s minhas prprias perguntas.
   Pedro Bandeira
